sábado, 7 de fevereiro de 2026

O espelho que evitamos

   Sempre foi mais fácil apontar o dedo para Brasília, para o Congresso, para “eles”. Mais confortável acreditar que o problema do Brasil mora longe, em gabinetes climatizados. Mas, quando o barulho baixa, sobra uma verdade incômoda: o problema também mora aqui. Em mim. Em você.


Somos nós quando escolhemos não aprender, quando tratamos o estudo como castigo e o livro como enfeite. Quando reclamamos da segunda-feira antes mesmo do domingo acabar, como se trabalhar fosse um erro do sistema e não parte da vida. Somos nós quando contamos os dias para o feriado, mas não contamos as horas de dedicação ao que importa.


Somos nós quando passamos o dia deslizando o dedo na tela, sonhando com fama fácil, curtidas rápidas e dinheiro sem esforço. Quando a conversa se resume ao último jogo, ao meme da vez, à polêmica vazia que distrai, mas não constrói. Quando confundimos entretenimento com propósito.


Somos nós quando aceitamos atalhos demais. Quando trocamos responsabilidade por conforto, consciência por conveniência. Quando levantamos tarde não porque precisamos, mas porque não queremos. Quando terceirizamos nossos fracassos e chamamos de injustiça aquilo que também é escolha.


Somos nós quando votamos sem pensar, quando vendemos opinião por promessa, por favor, por vantagem momentânea. Quando esquecemos que cada escolha, por menor que pareça, ajuda a desenhar o país que depois criticamos.


Talvez o Brasil não precise apenas de novos políticos. Talvez precise, antes, de novos hábitos. De gente disposta a olhar no espelho sem desculpas. Porque, no fim, mudar o país começa quando a gente para de se excluir do problema — e aceita fazer parte da solução.

 

J.K – 10.01.26





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