sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Autorretrato 2 — J.K

Nasci em Santa Maria, mas foi São Marcos que me adotou pelo coração. Sou feito dessa mistura: raiz que não esquece de onde veio e asa que aprendeu onde quer pousar. Moro em Caxias do Sul há mais de três décadas, mas é em Farroupilha que construo meus dias — no 585 encontrei mais que trabalho, encontrei pertencimento. Ali, se a vida permitir, quero encerrar meu expediente final.


Carrego a família como quem carrega um relicário invisível no peito. A saudade do meu pai, Dalton, não é ausência — é presença em silêncio. Meus parentes estão espalhados pelo mundo, mas vivem todos dentro de mim. Fernanda e Rodolfo são continuação do meu riso. Jeanine é meu abrigo. E César é o irmão que o destino escreveu fora do sangue.


Sou exagero assumido. Sagitariano raiz. Vivo com intensidade que às vezes transborda. Sou tri sorridente — uso o riso como ponte, como defesa e como abraço. Faço palhaçadas porque a vida já é séria demais. Se me elogiam, eu desarmo. Se me cantam, eu me escondo atrás de um sorriso tímido.


Sou retrô num mundo apressado: ainda acredito no barulho do vinil, no cheiro do livro, no ritual do café preto coado em pano. Gosto das cores vibrantes de Almodóvar, da dor transformada em arte de Frida Kahlo. Tenho algo de Garfield: um sarcasmo doce, uma preguiça seletiva e um amor assumido por porcarias e chocolates.


No inverno eu cresço. No verão eu prometo diminuir. Nunca sou totalmente um nem outro — sou sempre processo. Não faço exercícios, mas exercito afetos. Não ligo para dinheiro, mas aprendi que a falta dele pesa. Tenho memória ruim para nomes, mas reconheço as pessoas pelo cheiro — e isso é quase mágico.


Sou uma eterna criança fingindo maturidade. Ou talvez um adulto que se recusa a deixar a infância morrer.


E quando eu partir — porque todos partimos — não chorem por mim. Digam apenas: ele viveu. Com fome de mundo. Com sede de afeto. Intensamente. Exageradamente. Sem pedir licença.


J.K - 13.02.26




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