Da janela do quarto andar da rua Os 18 do Forte, observo a noite como quem assiste a um filme sem som. Pessoas atravessam a calçada em passos rápidos, quase fugidios, e fico tentando adivinhar se correm por medo, por hábito ou apenas porque o mundo anda exigindo pressa demais. Às vezes imagino que fogem de mim; outras, concluo que fogem de si mesmas.
No prédio em
frente, uma janela acesa chama minha atenção. A vizinha fala ao celular com
pouca roupa e muita naturalidade, como se estivesse sozinha no mundo. É bonita,
tem um corpo que chama o olhar, mas o que realmente prende é o sorriso largo do
começo da conversa. Há alegria ali, uma leveza que quase atravessa o vidro.
De repente, algo
muda. O sorriso se recolhe, o corpo endurece, os gestos ficam mais secos. Ela
parece discutir, e eu, no escuro do meu quarto, invento histórias para
preencher os silêncios que não escuto. Imagino quem está do outro lado da
linha, o que foi dito, o que doeu. Por alguns minutos, esqueço de mim e entro,
sem convite, na vida dela.
Percebo então o
quanto minha janela é indiscreta. Não só por aquela mulher, mas porque, dali,
enxergo dezenas de outras janelas acesas ou apagadas, cheias de vidas
acontecendo sem legenda. Cada uma parece pedir um enredo: aqui uma comédia
apressada, ali um drama antigo, mais adiante um suspense que se arrasta há
anos.
Em segundos, minha
cabeça vira um roteirista inquieto. Invento finais felizes improváveis,
discussões mal resolvidas, segredos guardados atrás de cortinas. E confesso: às
vezes sinto vontade de acrescentar um pouco de terror, não aquele que grita,
mas o silencioso — o medo de não ser visto, de não ser ouvido, de atravessar a
noite apressado sem saber exatamente do quê se foge.
No fim, desligo a
luz e fecho a cortina. Talvez o verdadeiro susto seja perceber que, enquanto
observo os outros, alguém pode estar inventando histórias sobre mim. E que toda
janela, aberta ou fechada, revela menos do que promete.
J.K – 19.01.26

Somos assim e imaginação tb.
ResponderExcluirSomos assim… e a imaginação às vezes enxerga mais do que os olhos. Obrigado por ter lido!
ExcluirO que seria de nós, se não fôssemos feitos, também, de fantasia e imaginação?
ResponderExcluirO que seria de nós, se não fôssemos feitos, também, de fantasia e imaginação?
ExcluirSeríamos apenas olhos que veem, mas não sentem. A fantasia é o que nos impede de atravessar a vida no automático. Quando invento histórias para as janelas alheias, talvez eu esteja tentando entender as minhas próprias.
Imaginar não é fugir da realidade — é aprofundá-la. Porque, no fundo, não somos só concreto e rotina. Somos também aquilo que sonhamos enquanto observamos o mundo passar.