Eu sei que tenho hábitos estranhos. Acordo cedo demais, quando o mundo ainda boceja, e começo o dia como se houvesse urgência em existir. Gosto de coisas que não fazem muito sentido para os outros, mas que pra mim funcionam como um eixo secreto.
Me atraem os excessos: sentimentos intensos,
paixões que queimam, dias quentes demais ou congelantes. Também gosto do momento em que o
vento muda tudo, quando o ar avisa que algo vai acontecer. Prefiro as noites
mais fechadas — é nelas que enxergo melhor quem sou.
Não sou fácil de agradar! Meu gosto é treinado para
o amargo, para o forte, para o que arde um pouco antes de satisfazer. Bebidas
que fazem careta, comidas que picam a língua, conversas longas que só fazem
sentido de madrugada, quando ninguém mais está tentando parecer normal.
Talvez você ache que me conhece, mas não conhece.
Tenho dessas manias meio tortas, dessas escolhas invertidas. Às vezes faço tudo
ao contrário, visto o mundo do avesso, e basta um desejo verdadeiro para me
tirar completamente do eixo.
Se você insistir, eu explico. Posso até dizer de
outro jeito, em outra língua, com menos defesas e mais entrega. Há palavras que
só funcionam quando ditas sem tradução, direto do impulso.
O problema é que ficou em mim um gosto seu. Um
rastro. Uma espécie de veneno bom, desses que não matam, mas viciam. Desde
então, confesso, ando correndo atrás dessa sensação outra vez.
No fim, é sempre assim: eu, minhas manias, o amargo
que me agrada, o ardor que me move, e as conversas que só existem quando o
mundo dorme. É nesse horário que eu me revelo — e quase sempre, é tarde demais.
J.K – 09.01.26

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