domingo, 15 de fevereiro de 2026

A casa onde ainda moro

    Nasci em uma família tradicional do interior, nos bons anos 60, quando a vida acontecia mais devagar e a família era o centro de tudo. A casa tinha cheiro, tinha rotina, tinha silêncio e tinha cuidado. Ali eu aprendi, sem que ninguém precisasse explicar, o que era pertencimento!


Cresci aprontando, como quem testa o mundo. Corria até o corpo pedir descanso, inventava travessuras e voltava para casa ao fim do dia carregando poeira nos pés e alegria no peito. Sempre havia um abraço do pai me esperando, um beijo da mãe e o riso cúmplice da minha irmã. Aquilo me recolocava no eixo. Era onde eu me encontrava!


Meu pai saía cedo, anel e formatura no dedo, passos firmes, levando nos ombros mais do que trabalho: levava responsabilidade, exemplo e presença. Minha mãe ficava. Cuidava! Sustentava! A casa respirava através dela. A comida era afeto servido à mesa, e o cuidado, um gesto diário que nunca fez barulho!


Um dia, sem aviso, meu pai partiu! A casa continuou em pé, mas algo dentro de nós cedeu. A mesa ficou incompleta. O silêncio ganhou peso. A saudade chegou e ficou morando comigo. Não passa! Não passa mesmo. Aprende-se apenas a conviver com ela!


Nos aproximamos ainda mais da mãe e seguimos. Seguimos como deu. Com dor, com vazio, com fé. Porque ele nos ensinou, sem palavras, que a vida continua e que a gente precisa honrar quem foi ficando inteiro. A ausência não nos quebrou. Nos fortaleceu de outro jeito!


Cresci assim, carregando memórias, exemplos e silêncios. Tudo o que sou hoje nasceu daquela casa, daquela família, daquele amor que não acabou com a morte. Uma família bem estruturada não nos livra da perda, mas nos ensina a atravessar o luto sem perder quem somos. E aquela casa… aquela casa ainda mora em mim!

 

J.K - 11.01.2026




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