Eu nasci em Santa Maria, mas meu coração escolheu São Marcos como quem escolhe um amor definitivo. Sou feito de chão e deslocamento. De partida e permanência. Moro há mais de trinta anos em Caxias do Sul, trabalho em Farroupilha, mas a verdade é que eu vivo mesmo é nas pessoas que amo. O resto é endereço.
O 585 não é só emprego. É extensão de mim. É o lugar onde acordo cedo, visto coragem e construo dias. Ali eu encontrei dignidade, rotina, propósito. E, se a vida permitir, quero que meu último crachá seja dali. Porque eu não trabalho só por obrigação — eu me entrego.
Meu pai, Dalton… não está mais aqui, mas está em tudo. No jeito que sorrio. No jeito que insisto. Na saudade que aperta sem pedir licença. Saudade é um tipo de amor que ficou sem abraço. Minha família está espalhada pelo mundo, mas eu carrego cada um dentro do peito como quem carrega brasa acesa. Fernanda e Rodolfo são futuro com meu sobrenome emocional. Jeanine é metade da minha história. César é o irmão que o sangue não escreveu, mas a vida assinou.
Sou exagerado. Intensidade é meu idioma. Eu rio alto, faço palhaçada, quebro o peso dos dias com humor — porque se eu não rir, eu transbordo. Sou tri sorridente, mas nem todo sorriso é leve: às vezes é escudo. Se me cantam, eu me desarmo. Se me elogiam, eu me escondo. Sou coragem para quase tudo — menos para o amor quando ele me encara de frente.
Eu ainda acredito no toque das coisas. No vinil que estala. No livro que cheira a papel. No café preto, forte, coado em pano — amargo como algumas verdades que já engoli. Gosto das cores que gritam de Almodóvar, da dor transformada em arte de Frida Kahlo. Tenho o sarcasmo do Garfield, mas por trás dele mora um coração absurdamente sensível.
Não faço exercícios. Faço excessos. No inverno engordo — como se o frio me pedisse proteção. No verão tento emagrecer — como se o calor me pedisse coragem. Não ligo para dinheiro, mas sei o quanto ele falta. Tenho memória ruim para nomes, mas reconheço as pessoas pelo cheiro. Pelo jeito. Pela energia. Eu sinto antes de entender.
Sou uma criança que nunca quis crescer completamente. E talvez esse seja meu maior defeito — ou minha maior virtude.
E quando eu morrer, não façam silêncio triste. Digam apenas que eu vivi como sabia viver: sem economia de sentimento. Com fome de afeto. Com sede de mundo.
J.K - 13.02.26

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