quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

O homem, o unicórnio e o mistério da vida

 Eu já tinha passado dos cinquenta anos quando aprendi que o espanto não envelhece. Foi numa estrada de chão batido, dessas que cortam o interior de Caxias do Sul como quem divide o mundo em silêncio e neblina. Eu caminhava sem pressa, colecionando pensamentos gastos, quando o vi.

 

Primeiro veio o susto. Meu coração disparou como se tivesse reencontrado algo que nunca soube que perdera. Ele também recuou. O unicórnio — sim, um unicórnio — baixou a cabeça, o chifre em espiral refletindo a luz do entardecer. Seu pelo era prata viva, não o brilho frio do metal, mas um clarão macio, quase respirável. Por alguns segundos, fomos dois seres igualmente assustados, tentando entender o erro que o mundo havia cometido ao nos colocar ali.

 

O medo durou pouco. Talvez porque o medo, quando encontra o sagrado, se transforma em respeito. Ou talvez porque, dentro de mim, uma criança antiga começou a puxar conversa.

 

Aproximei-me devagar. Ele fez o mesmo. O chifre dele vibrava levemente, como se captasse algo que meus sentidos já não alcançavam. Foi então que entendi: aquele chifre não era arma, nem ornamento. Era antena. Um elo. Um fio invisível ligando céu e terra, infância e velhice, dúvida e fé.

 

Ele me olhou — e não era um olhar comum. Era um olhar que atravessa.
Sem palavras, ele me contou que seu chifre tinha propriedades de cura, mas não apenas do corpo. Curava a pressa, o cinismo, a dureza que os anos colocam na gente como poeira. Disse que os homens adoecem mais por esquecer do amor do que por falta de remédios.

 

Sentamo-nos ali, eu e o impossível, como velhos amigos que se reencontram sem explicação. E foi nesse silêncio que ele me contou algo maior. Disse que Jesus Cristo está voltando. Não como ameaça, nem como espetáculo. Voltando como promessa. Como abraço. Como lembrança viva de que o amor ainda é o caminho mais curto entre dois homens.

 

Eu acreditei. Não porque o unicórnio falou. Mas porque, enquanto ele falava, meu coração reconheceu a verdade como quem reconhece a própria casa.

 

Ele me disse que o mundo anda cansado, ferido, desconfiado. Que os homens esqueceram de escutar — uns aos outros, a si mesmos, e a Deus. Que a esperança não faz barulho, mas resiste. E que esperar o Salvador não é ficar parado olhando o céu, mas caminhar melhor pela terra.

 

Quando a neblina engrossou, ele se levantou. Tocou meu ombro com o chifre, de leve. Não houve milagre visível. Nenhuma cura instantânea. Apenas uma paz estranha e funda, dessas que não passam.


Ele seguiu pela mata. Eu segui pela estrada.

 

Desde aquele dia, caminho diferente. Carrego menos peso, falo com mais cuidado, amo com mais urgência. E quando alguém ri da ideia de um unicórnio, eu sorrio também. Há verdades que só aparecem para quem ainda consegue acreditar.

 

Eu acredito. E aguardo, com fé serena, a vinda do Salvador.

 

J.K – 06.02.26




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