Esperei por você como quem conta as horas da própria vida. Foram dias inteiros, semanas que não acabavam, meses atravessados sem coragem de ir embora. Em cada ano, renovei a promessa de ficar, imaginando que até o próximo século ainda haveria espaço para essa espera. Não foi fidelidade heroica, foi insistência: eu me mantive ali porque partir parecia mais doloroso do que continuar.
Esperei em todo tipo de lugar e estado. À mesa
vazia e na cama desfeita, sob o céu aberto e com os pés sujos de chão. Houve
dias em que esperei em silêncio, outros em que o álcool falava por mim, e ainda
aqueles em que gritei para ninguém ouvir. Esperei com o estômago roncando, com
o nome esquecido, às vezes chorando, outras incapaz de sorrir. Andei por cantos
improváveis, ruas tortas, mundos alheios, sempre carregando esse vazio sem
fundo que se abriu dentro de mim.
Também te esperei nos contrastes da vida: no que
era sagrado e no que parecia condenado, no luxo e no abandono, vestido de pudor
ou exposto demais. Esperei na sombra e na luz, no campo e no esgoto, na noite
solitária e no brilho artificial das lâmpadas. Esperei nos encontros estranhos
entre beleza e medo, na superfície tranquila e nos abismos mais fundos. Esperei
nos acertos e nos erros, no que era teu e no que era meu, atravessando meses
repetidos e estações cansadas, até chegar a mais um janeiro ainda disposto a te
receber.
Hoje meu corpo acusa essa espera: dói o que
cicatrizou torto, pulsa o que não fechou direito. O coração soa como tempestade
anunciada, e tudo em volta parece suspenso antes da chuva. Ainda assim, lembro
de um tempo antigo, de histórias de água subindo e de mesas virando barcos
improvisados, de um sinal no céu prometendo que o sol voltaria. Talvez seja
isso que me mantém de pé: a sensação de que o ar mudou, de que algo pode nascer
depois de tanta vigília.
J.K – 11.01.26

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