sábado, 14 de fevereiro de 2026

Carnaval do bloco eu comigo mesmo

 Primeiro dia de Carnaval. Enquanto o Brasil inteiro parece ter combinado de usar glitter até no pensamento, eu estou aqui, no quarto andar do meu apartamento em Caxias do Sul, ouvindo Enya como se estivesse flutuando numa floresta encantada da Irlanda. Café preto passado na hora, janela aberta, e eu me sentindo o ser humano mais alternativo da Serra Gaúcha às cinco da manhã.

 

A cidade acorda numa lentidão quase poética. A famosa 18 do Forte, que normalmente parece final de campeonato, hoje está quase em modo soneca. De vez em quando passa um carro, um ônibus meio sonolento, uma pessoa arrastando mala rumo ao litoral — provavelmente já fantasiada de “eu mereço essa praia”. E eu aqui, fantasiado de paz interior.

 

Confesso: por alguns minutos até cogitei descer também. Imagino eu, de chinelo, protetor solar e uma dignidade questionável tentando acompanhar algum trio elétrico improvisado. Mas aí lembrei das últimas três semanas na estrada, visitando clientes, vivendo à base de posto de gasolina e café requentado. Meu espírito pediu arrego. Meu corpo pediu sofá. Minha sanidade pediu silêncio.

 

Então decidi assumir oficialmente meu bloco: o glorioso “Eu Sozinho”. Não tem abadá, mas tem pijama. Não tem trio elétrico, mas tem controle remoto. A programação inclui maratona de séries, filmes que eu digo que são “cult” mas ninguém nunca ouviu falar, livro pela metade esperando reconciliação e uma playlist que vai de Enya a qualquer coisa que combine com introspecção dramática olhando pela janela.

 

E quer saber? Tem algo deliciosamente rebelde em não fazer nada quando todo mundo está fazendo tudo. Enquanto a maioria desce a serra, eu subo o volume da tranquilidade. Enquanto o mundo grita, eu sussurro comigo mesmo. É meu jeito de começar o ano antes que ele comece oficialmente depois do Carnaval.

 

Então, bom Carnaval para quem está na folia, na praia, no bloquinho ou no churrasco improvisado. Eu estarei aqui, firme e forte, defendendo o direito constitucional do descanso. Porque às vezes a maior festa é justamente essa: estar em paz, rindo da própria escolha… e sem glitter para limpar depois.

 

J.K – 14.02.26




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