Caminhei pelo
Centro e parecia cena de filme de velho oeste. Faltou só o feno rolando pela
rua e um sujeito misterioso me encarando da esquina. No lugar dos cavalos,
alguns carros tímidos e meia dúzia de sobreviventes da maratona carnavalesca.
De dez lojas, duas abertas — e eu, claro, achei que era sinal divino para
gastar uns pilas. Lá se foi meu orçamento, tchê! Carnaval também é isso: a
gente perde a dignidade no bloco e o dinheiro no comércio.
Confesso que achei
que encontraria a cidade vestida para a Festa da Uva, já que ela começa nesta
quinta-feira. Imaginei ruas enfeitadas, clima de expectativa, aquele orgulho
italiano vibrando nas esquinas. Mas a decoração estava econômica: um cacho de
uva pendurado num guindaste na Praça Dante Marcucci, resistindo bravamente
depois da chuva de pedra, e um chafariz tingido de roxo, quase vinho, tentando
manter o clima festivo. As poucas lojas abertas faziam sua parte, enfeitadas e
esperançosas — como quem diz: “acabou o samba, agora é hora da colheita”.
E foi ali, na
Júlio de Castilhos, que o Carnaval mudou de ritmo. Uma senhorinha, levando seu
lixo até a lixeira, me olhou fundo nos olhos e pediu um abraço. Assim, simples!
Direto! Eu abracei! Forte! Anos atrás, ela já tinha me parado, chorando,
dizendo que eu lembrava o filho que havia partido cedo demais. Contou-me a
história dele por longos minutos que ficaram gravados em mim. Desta vez, o
abraço foi mais silencioso, mas carregado de tudo: saudade, amor, ausência.
Saí dali pensando
que Carnaval não é só sobre pular até cair ou rir até perder o fôlego. Às
vezes, no meio da cidade vazia e das lojas fechadas, a gente encontra o que
realmente importa: um abraço que cura um pouco, uma memória que resiste e um
amor de mãe que nunca desfila, mas permanece. Entre confetes imaginários e ruas
quase desertas, ganhei o melhor enredo do dia — desses que a gente guarda não
na caixa preta da ressaca, mas no peito.
J.K – 17.02.26

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