terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Terça de carnaval: entre a ressaca e o abraço


     Terça de Carnaval em Caxias do Sul e a cidade parecia ter sido abduzida por um bloco intergaláctico! Quase ninguém nas ruas, um silêncio suspeito… aquele silêncio típico de quem pulou quatro dias seguidos, jurou que “era só mais uma” e agora está negociando com o travesseiro para continuar vivo. À noite ainda tem mais folia, mais glitter infiltrado até na alma e mais promessas de nunca mais beber — promessas que duram menos que confete ao vento. E na quarta-feira de cinzas, o clássico: “Quem sou eu? Onde estou? E por que meu celular tem 37 fotos tremidas?”

 

Caminhei pelo Centro e parecia cena de filme de velho oeste. Faltou só o feno rolando pela rua e um sujeito misterioso me encarando da esquina. No lugar dos cavalos, alguns carros tímidos e meia dúzia de sobreviventes da maratona carnavalesca. De dez lojas, duas abertas — e eu, claro, achei que era sinal divino para gastar uns pilas. Lá se foi meu orçamento, tchê! Carnaval também é isso: a gente perde a dignidade no bloco e o dinheiro no comércio.

 

Confesso que achei que encontraria a cidade vestida para a Festa da Uva, já que ela começa nesta quinta-feira. Imaginei ruas enfeitadas, clima de expectativa, aquele orgulho italiano vibrando nas esquinas. Mas a decoração estava econômica: um cacho de uva pendurado num guindaste na Praça Dante Marcucci, resistindo bravamente depois da chuva de pedra, e um chafariz tingido de roxo, quase vinho, tentando manter o clima festivo. As poucas lojas abertas faziam sua parte, enfeitadas e esperançosas — como quem diz: “acabou o samba, agora é hora da colheita”.

 

E foi ali, na Júlio de Castilhos, que o Carnaval mudou de ritmo. Uma senhorinha, levando seu lixo até a lixeira, me olhou fundo nos olhos e pediu um abraço. Assim, simples! Direto! Eu abracei! Forte! Anos atrás, ela já tinha me parado, chorando, dizendo que eu lembrava o filho que havia partido cedo demais. Contou-me a história dele por longos minutos que ficaram gravados em mim. Desta vez, o abraço foi mais silencioso, mas carregado de tudo: saudade, amor, ausência.

 

Saí dali pensando que Carnaval não é só sobre pular até cair ou rir até perder o fôlego. Às vezes, no meio da cidade vazia e das lojas fechadas, a gente encontra o que realmente importa: um abraço que cura um pouco, uma memória que resiste e um amor de mãe que nunca desfila, mas permanece. Entre confetes imaginários e ruas quase desertas, ganhei o melhor enredo do dia — desses que a gente guarda não na caixa preta da ressaca, mas no peito.

 

J.K – 17.02.26

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário