Passei parte
da minha infância nos anos 80 e posso dizer, sem medo de errar, que aquela
década deixou uma quantidade absurda de ícones na música, no cinema, na
televisão e na cultura pop. Voltar para os anos 80 seria muito mais do que
matar a saudade. Seria reencontrar pessoas que fizeram parte da nossa história,
caminhar por ruas que ainda guardam lembranças, ouvir uma música no rádio e ser
transportado imediatamente para outro tempo.
Naquela
época, a vida parecia ter mais horas e menos pressa. A gente brincava na rua
até o anoitecer, chamava o amigo no grito pelo portão ou tocava o interfone.
Não existia WhatsApp, celular, computador em casa ou essa necessidade maluca de
estar conectado o tempo inteiro.
Minha maior
preocupação, confesso, era ir para a escola e tomar meu Toddynho enquanto ele
ainda estivesse gelado. E olha que isso já era assunto sério! A felicidade
estava nas pequenas coisas: no cheiro de bolo caseiro nas festas de aniversário,
na bicicleta encostada no muro, na fita cassete gravada do rádio e no sábado em
que a gente ia à locadora escolher um filme em VHS. A vida era analógica, mas
as lembranças ficaram em alta definição.
E que década, hein? A televisão e o cinema nos
entregavam Os Goonies, La Bamba, Sexta-feira 13, Flashdance,
Guerra nas Estrelas, Karatê Kid, A Lagoa Azul e Dirty
Dancing. Na televisão, tinha Casal 20, O Incrível Hulk, Miami
Vice, As Panteras, Magnum e tantos outros. No rádio, era
Ritchie, Roupa Nova, RPM, Legião Urbana, Lulu Santos, Sempre Livre, Inimigos do
Rei, Ira!, Engenheiros do Hawaii, Capital Inicial, Kid Abelha, Joelho de Porco,
AC/DC, Cyndi Lauper, The Police, Madonna, Bon Jovi, Guns N' Roses... e a gente
ainda precisava esperar a música tocar para gravá-la na fita cassete, torcendo
para o locutor não falar justamente no começo. E tinha a Buzina do Chacrinha
nas tardes de sábado, com as chacretes, cada uma com sua beleza, seu corpo e
seu jeito.
Hoje,
olhando para trás, acho curioso como havia espaço para tantos tipos de beleza.
Não existia essa obrigação de todo mundo parecer ter saído do mesmo filtro. E a
moda? Bom, aí já é outra história! Roupas enormes, cores cítricas, estampas
geométricas, cabelos extravagantes e aquelas ombreiras gigantescas que,
sinceramente, eram horríveis! Hoje olho para as fotos e penso: Meu Deus, o
que eu estava fazendo? Mas era moda! E a gente era feliz assim mesmo. E
como!
Também foi
uma década de mudanças! Em 1984, o movimento Diretas Já levou milhões de
brasileiros às ruas em busca de democracia, num país que ainda tentava deixar
para trás os anos de ditadura. A tecnologia começava a chegar, os videogames de
cartucho encantavam a gurizada e tudo parecia novidade. Só que, apesar de todas
essas transformações, ainda vivíamos naquele finalzinho de uma época em que a
criatividade precisava existir porque não havia um aplicativo para resolver
tudo.
Se queríamos
conversar, conversávamos. Se queríamos brincar, inventávamos a brincadeira. Se
queríamos ouvir música, esperávamos o rádio tocar. Se queríamos assistir a um
filme, íamos à locadora. E talvez seja justamente por isso que eu tenha tanta
saudade. Não porque tudo fosse melhor, porque não era. Havia problemas,
dificuldades, injustiças e muita coisa que precisava mudar. Mas existia uma
espécie de intervalo entre uma coisa e outra.
Hoje vivemos
no “produza, produza imediatamente!”, cercados de telas, notificações,
cobranças e uma pressa que parece ter tomado conta até dos nossos momentos de
descanso. Trabalhamos, corremos, consumimos, respondemos mensagens e, quando
finalmente temos tempo, muitas vezes não sabemos mais o que fazer com ele.
Talvez seja
por isso que eu goste tanto de lembrar dos anos 80. Não quero voltar no tempo.
Sei que isso é impossível e, sinceramente, também não gostaria de abrir mão de
tudo o que conquistamos. Mas às vezes eu queria apenas recuperar um pouquinho
daquela sensação de que a vida não precisava acontecer imediatamente.
Queria
novamente ter uma tarde inteira pela frente, sem agenda, sem notificação, sem
ninguém perguntando onde eu estava. Queria uma fita cassete, uma bicicleta, uma
rua cheia de crianças, um bolo feito em casa e um filme escolhido depois de
meia hora diante de uma prateleira de VHS. Talvez a minha memória esteja
romantizando tudo, e provavelmente está. Memória tem dessas coisas: ela tira as
rugas do passado e coloca um filtro bonito sobre aquilo que vivemos. Mas eu
gosto desse filtro!
Afinal,
passei parte da infância naquela década e algumas das melhores lembranças que
carrego nasceram ali. Os anos 90 ficam para outra crônica. Por enquanto, deixa
eu ficar mais um pouco nos anos 80. Afinal, saudade também é uma maneira
bonita de visitar lugares onde a gente foi feliz!
JK. 07.09.26






