Outro dia me disseram que você anda contando
histórias sobre nós dois! Histórias em que eu apareço como alguém completamente
rendido a você, dominado pelo teu jeito, quase sem vontade própria. Dizem que
você fala disso com um certo sorriso no canto da boca, como quem revive uma
lembrança divertida. Eu ouvi e confesso que achei curioso como a memória pode
escolher versões tão diferentes da mesma história.
A verdade é
que entre nós sempre existiu um jogo silencioso! Aqueles encontros cheios de
olhares demorados, conversas que pareciam inocentes e um clima que aquecia
devagar, como quem acende uma chama sem pressa. Havia noites em que bastava a proximidade,
um gesto teu, o jeito que você sorria e tudo já ganhava outro sentido. Não era
preciso dizer muito! O corpo entendia aquilo que as palavras evitavam explicar.
Mas se
alguém quiser falar de quem usou quem nessa história, talvez seja melhor olhar
com um pouco mais de honestidade. Sim, eu também me deixei levar! Aproveitei o teu
riso, a tua presença, o calor das noites em que a solidão parecia distante
quando você estava por perto. Em alguns momentos, confesso, eu só queria sentir
aquele conforto silencioso que existia entre nós.
O curioso é
que, no meio de tudo isso, quem acabou se cansando de tudo isso fui eu! Não por falta de
desejo, mas porque certas histórias, quando repetidas demais, começam a perder
o brilho que tinham no começo. Aquilo que antes parecia intenso passa a soar
como um eco distante de algo que já foi mais forte.
Então, antes
de continuar contando versões por aí, talvez valha a pena fazer um pequeno
exercício de sinceridade. Olhar no espelho com calma e lembrar de como as
coisas realmente aconteceram. Porque, no fundo, nós dois sabemos que aquela
história nunca foi tão simples quanto parece quando alguém resolve contá-la
para os outros.
J.K – 11.03.26






