terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

O sagrado de voltar

     Morar sozinho me ensinou que a casa é mais do que abrigo. É templo. Quando retorno no fim do dia e fecho a porta, sinto que algo em mim também se recolhe. O mundo fica do lado de fora, e eu entro em mim mesmo, com respeito e calma.

 

O trabalho ocupa horas, exige entrega, consome forças. Faço o que me cabe, sigo o fluxo do dia, enfrento o que surge. Mas carrego a certeza silenciosa de que cada jornada cumprida é uma bênção disfarçada de esforço. Nem todo dia é leve, mas todo dia é concedido.

 

Ao chegar, o primeiro gesto é a gratidão. Pelo dia que passou, pelo sustento que não faltou, pela saúde que permitiu ir e voltar. Agradeço também pelas pessoas que não dividem o teto comigo, mas habitam meu coração: a família, guardada na memória e no afeto; os amigos, espalhados pela vida, mas presentes nas minhas orações silenciosas.

 

No silêncio da casa, encontro um tipo raro de presença. Não me sinto só. Sinto-me acompanhado por algo maior, que não precisa de nome. Há paz em reconhecer que estar comigo é também estar amparado. O tempo desacelera, a alma respira, e tudo encontra seu lugar.

 

Assim, dia após dia, sigo. Voltar para casa se transforma em rito, o descanso em agradecimento, e a rotina em testemunho. Amanhã o sol nascerá outra vez, e eu estarei pronto, não por força própria, mas pela graça de simplesmente continuar.

 

J.K – 20.01.26




segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Quando falo contigo, mãe!

     Quando me dirijo a ti, Nossa Senhora, não é por hábito nem por costume aprendido. É por amor! Um amor simples, de filho que reconhece o cuidado mesmo quando não entende os caminhos. Falar contigo é repousar a alma, é saber que há um colo invisível sustentando cada passo meu.

 

Tenho caminhado como posso, com acertos e falhas, levando comigo a fé que nem sempre é forte, mas é sincera. Em ti encontro ternura e firmeza, aquela presença que não julga, mas orienta. Quando o coração se inquieta, é teu nome que acalma meus pensamentos.

 

Coloco diante de ti tudo o que sou: minhas alegrias discretas, minhas dores silenciosas, minhas dúvidas humanas. Peço que me ajudes a viver com mais mansidão, a amar com mais verdade e a confiar mesmo quando não vejo clareza no caminho. Ensina-me a aceitar o tempo, a cruz diária e o mistério da vida com humildade.

 

E quando chegar o dia em que eu tiver cumprido minha jornada aqui, sei que não estarei só. Confio que estenderei as mãos e serei acolhido como filho. Não com medo, mas com paz. Porque quem caminha sob teu cuidado aprende que o fim não é ausência, é encontro!

 

Até lá, permanece comigo, Mãe! Guarda meu coração, guia meus passos e fortalece minha fé. Amo-te com amor de filho, e é nesse amor que sigo, hoje, amanhã e além.

 

J.K – 20.01.26




 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

A cidade desfila dentro da gente

     Domingo, quarto dia da 35ª Festa Nacional da Uva, e eu fui assistir ao segundo desfile cênico na Caxias do Sul. Confesso: fui curioso… voltei emocionado! O desfile é ágil, vibrante, daqueles que passam num sopro. E, de repente, surge uma italiana bonita de encher os olhos, dessas que fazem a gente querer largar tudo e dançar tarantela no meio da rua. No final, muitos turistas fizeram exatamente isso! E eu quase fui junto!

 

A história é bem contada, as coreografias são ensaiadas com capricho, as vestimentas parecem ter saído de fotografias antigas que ganharam movimento. Mas o que mais me tocou foi outra coisa: em alguns momentos, eu me senti parte daquele cortejo. Não era só um espectador! Era alguém que também estava sendo contado ali. Afinal, foi essa cidade que me acolheu há 40 anos, que me deu chão, sotaque e pertencimento.

 

Eu, que carrego sobrenome alemão e português, ouso brincar que sou um “gringo avesso”, um italiano de coração emprestado. Falo alto, gesticulo, misturo tradição com afeto e tenho esse jeito meio colono que já virou minha assinatura. Ser filho adotivo de Caxias é isso: a gente escolhe amar e quando escolhe, ama com intensidade.

 

Foi bonito ver a Sinimbu lotada, gente sorrindo, abanando para as colônias que desfilavam com orgulho. Impressiona também a organização: as ruas fecham, o espetáculo acontece, e logo tudo volta ao lugar como mágica. Em minutos, o Centro respira de novo. É um esforço coletivo que emociona tanto quanto o próprio desfile.

Por isso, deixo aqui um convite sincero: se você ainda não assistiu, assista! Permita-se uma hora de encantamento. O desfile passa rápido e quando você percebe, já acabou… mas fica! Fica no peito, como ficam as boas histórias contadas ao redor de um filó. 🍇✨

 

J.K – 22.02.26






As mulheres que se reconhecem no próprio encanto

    Todas as mulheres são bonitas! Todas! Cada uma à sua maneira, no seu tempo, no seu corpo, na sua história. A beleza feminina não mora em um padrão, mora na forma como cada mulher ocupa o mundo, como caminha, fala, sente e se sustenta. Algumas encantam pela delicadeza, outras pela força, outras pelo silêncio! E o mais bonito é que nenhuma beleza anula a outra — elas coexistem.


Dito isso, em tom confessional e sem culpa, há mulheres que me encantam mais. Não porque sejam melhores, mas porque despertam algo específico em mim. Adoro mulheres de uniforme! Qualquer uniforme! Talvez seja um fetiche, talvez seja admiração, talvez seja a mistura de postura, identidade e função. Uniformes contam histórias, revelam rotinas, mostram que ali existe alguém que assume um papel no mundo. E isso, para mim, é profundamente sedutor.


Também me seduz — e muito — a inteligência. Sempre digo que inteligência é afrodisíaco! Nada se compara à intimidade de uma boa conversa, à troca de ideias, ao riso que nasce de uma frase bem colocada. Gosto de mulheres com quem se pode falar por horas, dividir pensamentos, silêncios, afetos. Aquelas conversas que acontecem sem pressa, depois do corpo descansar, com o calor ainda presente, e que fazem tudo recomeçar de forma natural, quase inevitável.


E não, nunca me atraíram corpos perfeitos ou moldados por exigências externas. O que me encanta são corpos reais. Mulheres com curvas, com uma leve barriguinha, com lugares onde se pode tocar, segurar, percorrer sem medo. Corpos que acolhem, que respondem ao toque, que têm história. É bonito demais quando o corpo da mulher não pede permissão para existir — ele simplesmente existe, e isso basta.


No fim, talvez o que mais me encante seja isso: mulheres que não tentam caber, mas ocupam. Que se reconhecem, se aceitam e seguem. Porque quando uma mulher se sente confortável em quem é, ela não apenas é bonita — ela é inesquecível.

 

J.K – 24.01.26




sábado, 21 de fevereiro de 2026

Quando o luto tem nome de mulher

    Eu tinha prometido dar um tempo nos meus escritos. Disse que precisava respirar, que talvez fosse melhor silenciar um pouco o coração. Mas um leitor me pediu para não parar… e hoje eu escrevo não por disciplina, nem por vaidade — escrevo porque estou triste demais para calar. Hoje escrevo com o coração partido. Perdi duas amigas!


A primeira foi a Andrea. Da minha idade. Estudamos juntos, dividimos corredores, risadas, aquela fase da vida em que a gente acredita que o mundo é eterno. Ela partiu! Não sei o motivo! Não tive coragem de ligar para a irmã. Talvez por medo da resposta, talvez por não saber o que dizer. Como será cremada em Porto Alegre, não estarei no último adeus. E isso me dói! Dói essa despedida sem abraço, sem olhar, sem “até logo”.


Mas o que me atravessou de um jeito quase insuportável foi a notícia da Rose. Minha amiga! Cliente! Uma mulher trabalhadora, presente, viva. Foi encontrada morta nesta madrugada. Estrangulada. A suspeita recai sobre o próprio marido, Ari, que depois também tirou a própria vida. E eu só consigo pensar no filho que ficou. Um filho que precisa de atenção especial. Um filho que agora precisará aprender a viver com um vazio impossível de explicar.


Eu me pergunto — e que me perdoem os homens — o que está acontecendo conosco? O que está acontecendo aqui no sul do país? Quantas mulheres mais precisarão morrer para que algo mude? Os feminicídios se acumulam nas manchetes, nas conversas sussurradas, nas estatísticas frias… mas não são números. São nomes! São histórias! São mães! São filhas! São amigas como as minhas! Que amor é esse que sufoca? Que orgulho é esse que mata? Que posse é essa que transforma afeto em sentença?


Se um relacionamento termina, que termine! Que doa! Que a gente chore! Que se recolha! Que faça luto. Mas que viva! Ninguém — absolutamente ninguém — tem o direito de tirar a vida de outra pessoa. Nem a própria! Amar não é possuir1 Amar não é vigiar1 Amar não é destruir1 Às vezes, ficar sozinho é um ato de maturidade. Às vezes, a solidão cura1 E um novo amor, quando tiver que vir, virá leve — não como ameaça, mas como recomeço.


Hoje eu escrevo com lágrimas que talvez nem apareçam na telinha do computador ou do celular, mas pesam na alma. Escrevo porque não quero que a morte da minha amiga seja apenas mais um registro. Escrevo porque preciso acreditar que a gente ainda pode aprender a amar sem ferir, a partir sem matar, a perder sem destruir. E, principalmente, porque não quero me acostumar com a notícia de que mais uma mulher foi silenciada.


Que a gente não se cale! Que a gente não normalize! Que a gente não aceite!


J.K - 21.02.26




Talvez eu esteja cansado de falar de mim

     Eu tenho tentado escrever sobre o que está acontecendo no mundo. Sair um pouco do meu umbigo literário e olhar para fora. Já me meti a falar da prisão de Maduro, das polêmicas envolvendo comerciais da Pepsi e das Havaianas (que, aliás, eu adorei, pronto, falei!), do carnaval e aquela homenagem ao presidente que mais parecia horário eleitoral gratuito, da Festa da Uva que está tomando conta de fevereiro e março, e até da Tatiana Sampaio, essa gigante da ciência que faz a gente acreditar que o Brasil ainda produz heroínas de jaleco. Eu olho para tudo isso e penso: estou ficando mais atento… ou só mais opinativo?

 

Confesso que estava começando a cansar de escrever sobre amores — os que deram certo, os que não deram, os que deram errado mas renderam texto. Cansado de transformar minhas próprias dores em parágrafos organizados, de analisar meu cotidiano como se eu fosse personagem principal de uma série que ninguém pediu para assistir. Convenhamos: eu não sou celebridade, não sou influenciador, não lanço tendência. Sou só alguém com teclado, opinião e um certo excesso de sentimentos.

 

E talvez aí esteja a graça… ou o problema. Porque escrever sobre mim era confortável. Eu controlo a narrativa, escolho o drama, exagero na vírgula. Quando falo de política, de cultura, de ciência ou de festas populares, eu me exponho diferente. Posso desagradar. Posso provocar. Posso até errar. E, veja só, isso dá um certo frio na barriga — que é ótimo, mas cansa também.

 

Depois de tantos textos publicados, tantas reflexões jogadas ao vento digital, eu comecei a pensar se não seria hora de dar um tempo. Respirar. Ficar em silêncio. Talvez me renovar. Talvez me reinventar. Ou talvez só descansar dessa necessidade de transformar tudo em texto. Porque escrever é maravilhoso — mas também é se despir em praça pública. E, convenhamos, até quem gosta de palco precisa sair de cena de vez em quando.


J.K – 20.02.26




sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Os verdadeiros heróis usam jaleto

     Eu confesso: muitas vezes também me deixo levar pelo brilho fácil das telas. Rolo o feed, vejo dancinhas, polêmicas, vaidades embaladas em segundos… e quase sem perceber estou ali, dando tempo e atenção ao que amanhã já será esquecido. A relevância parece ter virado sinônimo de seguidores. Mas, no fundo, algo em mim se pergunta: é isso mesmo que merece o nosso aplauso?

 

Enquanto isso, longe dos holofotes digitais, uma brasileira vestindo jaleco faz história. Tatiana Sampaio conduziu uma pesquisa com células-tronco que permitiu que seis pessoas tetraplégicas recuperassem movimentos e voltassem a andar. Se isso não é extraordinário, eu não sei mais o que é! Vidas que estavam limitadas voltaram a experimentar autonomia, esperança, dignidade. E me dói perceber como algo tão gigantesco ocupa tão pouco espaço nas nossas conversas diárias.

 

Por que vibramos mais com o supérfluo do que com o que realmente transforma destinos? Por que sabemos o nome de influenciadores, mas ignoramos quem dedica a vida a curar, pesquisar, salvar? Não é uma crítica amarga — é um incômodo sincero. Talvez estejamos anestesiados pelo entretenimento constante. Talvez tenhamos desaprendido a reconhecer o sagrado que existe na ciência, no estudo silencioso, nas horas intermináveis de laboratório.

 

Hoje eu quis fazer diferente. Quis parar, refletir e dar ênfase a quem merece. Valorizar a ciência é valorizar o futuro. É escolher o que é sólido em vez do que é raso. Que a história de Tatiana nos sacuda por dentro e nos lembre que os verdadeiros heróis não usam filtros nem capas — usam jalecos, persistência e fé no conhecimento. E talvez o primeiro passo seja simples: prestar atenção no que realmente importa.

 

J.K – 20.02.26