Eu tinha prometido dar um tempo nos meus escritos. Disse que precisava respirar, que talvez fosse melhor silenciar um pouco o coração. Mas um leitor me pediu para não parar… e hoje eu escrevo não por disciplina, nem por vaidade — escrevo porque estou triste demais para calar. Hoje escrevo com o coração partido. Perdi duas amigas!
A primeira foi a Andrea. Da minha idade. Estudamos juntos, dividimos corredores, risadas, aquela fase da vida em que a gente acredita que o mundo é eterno. Ela partiu! Não sei o motivo! Não tive coragem de ligar para a irmã. Talvez por medo da resposta, talvez por não saber o que dizer. Como será cremada em Porto Alegre, não estarei no último adeus. E isso me dói! Dói essa despedida sem abraço, sem olhar, sem “até logo”.
Mas o que me atravessou de um jeito quase insuportável foi a notícia da Rose. Minha amiga! Cliente! Uma mulher trabalhadora, presente, viva. Foi encontrada morta nesta madrugada. Estrangulada. A suspeita recai sobre o próprio marido, Ari, que depois também tirou a própria vida. E eu só consigo pensar no filho que ficou. Um filho que precisa de atenção especial. Um filho que agora precisará aprender a viver com um vazio impossível de explicar.
Eu me pergunto — e que me perdoem os homens — o que está acontecendo conosco? O que está acontecendo aqui no sul do país? Quantas mulheres mais precisarão morrer para que algo mude? Os feminicídios se acumulam nas manchetes, nas conversas sussurradas, nas estatísticas frias… mas não são números. São nomes! São histórias! São mães! São filhas! São amigas como as minhas! Que amor é esse que sufoca? Que orgulho é esse que mata? Que posse é essa que transforma afeto em sentença?
Se um relacionamento termina, que termine! Que doa! Que a gente chore! Que se recolha! Que faça luto. Mas que viva! Ninguém — absolutamente ninguém — tem o direito de tirar a vida de outra pessoa. Nem a própria! Amar não é possuir1 Amar não é vigiar1 Amar não é destruir1 Às vezes, ficar sozinho é um ato de maturidade. Às vezes, a solidão cura1 E um novo amor, quando tiver que vir, virá leve — não como ameaça, mas como recomeço.
Hoje eu escrevo com lágrimas que talvez nem apareçam na telinha do computador ou do celular, mas pesam na alma. Escrevo porque não quero que a morte da minha amiga seja apenas mais um registro. Escrevo porque preciso acreditar que a gente ainda pode aprender a amar sem ferir, a partir sem matar, a perder sem destruir. E, principalmente, porque não quero me acostumar com a notícia de que mais uma mulher foi silenciada.
Que a gente não se cale! Que a gente não normalize! Que a gente não aceite!
J.K - 21.02.26






