Sempre foi mais fácil apontar o dedo para Brasília, para o Congresso, para “eles”. Mais confortável acreditar que o problema do Brasil mora longe, em gabinetes climatizados. Mas, quando o barulho baixa, sobra uma verdade incômoda: o problema também mora aqui. Em mim. Em você.
Somos nós quando escolhemos não aprender, quando
tratamos o estudo como castigo e o livro como enfeite. Quando reclamamos da
segunda-feira antes mesmo do domingo acabar, como se trabalhar fosse um erro do
sistema e não parte da vida. Somos nós quando contamos os dias para o feriado,
mas não contamos as horas de dedicação ao que importa.
Somos nós quando passamos o dia deslizando o dedo
na tela, sonhando com fama fácil, curtidas rápidas e dinheiro sem esforço.
Quando a conversa se resume ao último jogo, ao meme da vez, à polêmica vazia
que distrai, mas não constrói. Quando confundimos entretenimento com propósito.
Somos nós quando aceitamos atalhos demais. Quando
trocamos responsabilidade por conforto, consciência por conveniência. Quando
levantamos tarde não porque precisamos, mas porque não queremos. Quando
terceirizamos nossos fracassos e chamamos de injustiça aquilo que também é
escolha.
Somos nós quando votamos sem pensar, quando
vendemos opinião por promessa, por favor, por vantagem momentânea. Quando
esquecemos que cada escolha, por menor que pareça, ajuda a desenhar o país que
depois criticamos.
Talvez o Brasil não precise apenas de novos
políticos. Talvez precise, antes, de novos hábitos. De gente disposta a olhar
no espelho sem desculpas. Porque, no fim, mudar o país começa quando a gente
para de se excluir do problema — e aceita fazer parte da solução.
J.K – 10.01.26






