sábado, 21 de fevereiro de 2026

Quando o luto tem nome de mulher

    Eu tinha prometido dar um tempo nos meus escritos. Disse que precisava respirar, que talvez fosse melhor silenciar um pouco o coração. Mas um leitor me pediu para não parar… e hoje eu escrevo não por disciplina, nem por vaidade — escrevo porque estou triste demais para calar. Hoje escrevo com o coração partido. Perdi duas amigas!


A primeira foi a Andrea. Da minha idade. Estudamos juntos, dividimos corredores, risadas, aquela fase da vida em que a gente acredita que o mundo é eterno. Ela partiu! Não sei o motivo! Não tive coragem de ligar para a irmã. Talvez por medo da resposta, talvez por não saber o que dizer. Como será cremada em Porto Alegre, não estarei no último adeus. E isso me dói! Dói essa despedida sem abraço, sem olhar, sem “até logo”.


Mas o que me atravessou de um jeito quase insuportável foi a notícia da Rose. Minha amiga! Cliente! Uma mulher trabalhadora, presente, viva. Foi encontrada morta nesta madrugada. Estrangulada. A suspeita recai sobre o próprio marido, Ari, que depois também tirou a própria vida. E eu só consigo pensar no filho que ficou. Um filho que precisa de atenção especial. Um filho que agora precisará aprender a viver com um vazio impossível de explicar.


Eu me pergunto — e que me perdoem os homens — o que está acontecendo conosco? O que está acontecendo aqui no sul do país? Quantas mulheres mais precisarão morrer para que algo mude? Os feminicídios se acumulam nas manchetes, nas conversas sussurradas, nas estatísticas frias… mas não são números. São nomes! São histórias! São mães! São filhas! São amigas como as minhas! Que amor é esse que sufoca? Que orgulho é esse que mata? Que posse é essa que transforma afeto em sentença?


Se um relacionamento termina, que termine! Que doa! Que a gente chore! Que se recolha! Que faça luto. Mas que viva! Ninguém — absolutamente ninguém — tem o direito de tirar a vida de outra pessoa. Nem a própria! Amar não é possuir1 Amar não é vigiar1 Amar não é destruir1 Às vezes, ficar sozinho é um ato de maturidade. Às vezes, a solidão cura1 E um novo amor, quando tiver que vir, virá leve — não como ameaça, mas como recomeço.


Hoje eu escrevo com lágrimas que talvez nem apareçam na telinha do computador ou do celular, mas pesam na alma. Escrevo porque não quero que a morte da minha amiga seja apenas mais um registro. Escrevo porque preciso acreditar que a gente ainda pode aprender a amar sem ferir, a partir sem matar, a perder sem destruir. E, principalmente, porque não quero me acostumar com a notícia de que mais uma mulher foi silenciada.


Que a gente não se cale! Que a gente não normalize! Que a gente não aceite!


J.K - 21.02.26




Talvez eu esteja cansado de falar de mim

     Eu tenho tentado escrever sobre o que está acontecendo no mundo. Sair um pouco do meu umbigo literário e olhar para fora. Já me meti a falar da prisão de Maduro, das polêmicas envolvendo comerciais da Pepsi e das Havaianas (que, aliás, eu adorei, pronto, falei!), do carnaval e aquela homenagem ao presidente que mais parecia horário eleitoral gratuito, da Festa da Uva que está tomando conta de fevereiro e março, e até da Tatiana Sampaio, essa gigante da ciência que faz a gente acreditar que o Brasil ainda produz heroínas de jaleco. Eu olho para tudo isso e penso: estou ficando mais atento… ou só mais opinativo?

 

Confesso que estava começando a cansar de escrever sobre amores — os que deram certo, os que não deram, os que deram errado mas renderam texto. Cansado de transformar minhas próprias dores em parágrafos organizados, de analisar meu cotidiano como se eu fosse personagem principal de uma série que ninguém pediu para assistir. Convenhamos: eu não sou celebridade, não sou influenciador, não lanço tendência. Sou só alguém com teclado, opinião e um certo excesso de sentimentos.

 

E talvez aí esteja a graça… ou o problema. Porque escrever sobre mim era confortável. Eu controlo a narrativa, escolho o drama, exagero na vírgula. Quando falo de política, de cultura, de ciência ou de festas populares, eu me exponho diferente. Posso desagradar. Posso provocar. Posso até errar. E, veja só, isso dá um certo frio na barriga — que é ótimo, mas cansa também.

 

Depois de tantos textos publicados, tantas reflexões jogadas ao vento digital, eu comecei a pensar se não seria hora de dar um tempo. Respirar. Ficar em silêncio. Talvez me renovar. Talvez me reinventar. Ou talvez só descansar dessa necessidade de transformar tudo em texto. Porque escrever é maravilhoso — mas também é se despir em praça pública. E, convenhamos, até quem gosta de palco precisa sair de cena de vez em quando.


J.K – 20.02.26




sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Os verdadeiros heróis usam jaleto

     Eu confesso: muitas vezes também me deixo levar pelo brilho fácil das telas. Rolo o feed, vejo dancinhas, polêmicas, vaidades embaladas em segundos… e quase sem perceber estou ali, dando tempo e atenção ao que amanhã já será esquecido. A relevância parece ter virado sinônimo de seguidores. Mas, no fundo, algo em mim se pergunta: é isso mesmo que merece o nosso aplauso?

 

Enquanto isso, longe dos holofotes digitais, uma brasileira vestindo jaleco faz história. Tatiana Sampaio conduziu uma pesquisa com células-tronco que permitiu que seis pessoas tetraplégicas recuperassem movimentos e voltassem a andar. Se isso não é extraordinário, eu não sei mais o que é! Vidas que estavam limitadas voltaram a experimentar autonomia, esperança, dignidade. E me dói perceber como algo tão gigantesco ocupa tão pouco espaço nas nossas conversas diárias.

 

Por que vibramos mais com o supérfluo do que com o que realmente transforma destinos? Por que sabemos o nome de influenciadores, mas ignoramos quem dedica a vida a curar, pesquisar, salvar? Não é uma crítica amarga — é um incômodo sincero. Talvez estejamos anestesiados pelo entretenimento constante. Talvez tenhamos desaprendido a reconhecer o sagrado que existe na ciência, no estudo silencioso, nas horas intermináveis de laboratório.

 

Hoje eu quis fazer diferente. Quis parar, refletir e dar ênfase a quem merece. Valorizar a ciência é valorizar o futuro. É escolher o que é sólido em vez do que é raso. Que a história de Tatiana nos sacuda por dentro e nos lembre que os verdadeiros heróis não usam filtros nem capas — usam jalecos, persistência e fé no conhecimento. E talvez o primeiro passo seja simples: prestar atenção no que realmente importa.

 

J.K – 20.02.26






 

Da janela indiscreta

     Da janela do quarto andar da rua Os 18 do Forte, observo a noite como quem assiste a um filme sem som. Pessoas atravessam a calçada em passos rápidos, quase fugidios, e fico tentando adivinhar se correm por medo, por hábito ou apenas porque o mundo anda exigindo pressa demais. Às vezes imagino que fogem de mim; outras, concluo que fogem de si mesmas.


No prédio em frente, uma janela acesa chama minha atenção. A vizinha fala ao celular com pouca roupa e muita naturalidade, como se estivesse sozinha no mundo. É bonita, tem um corpo que chama o olhar, mas o que realmente prende é o sorriso largo do começo da conversa. Há alegria ali, uma leveza que quase atravessa o vidro.


De repente, algo muda. O sorriso se recolhe, o corpo endurece, os gestos ficam mais secos. Ela parece discutir, e eu, no escuro do meu quarto, invento histórias para preencher os silêncios que não escuto. Imagino quem está do outro lado da linha, o que foi dito, o que doeu. Por alguns minutos, esqueço de mim e entro, sem convite, na vida dela.


Percebo então o quanto minha janela é indiscreta. Não só por aquela mulher, mas porque, dali, enxergo dezenas de outras janelas acesas ou apagadas, cheias de vidas acontecendo sem legenda. Cada uma parece pedir um enredo: aqui uma comédia apressada, ali um drama antigo, mais adiante um suspense que se arrasta há anos.


Em segundos, minha cabeça vira um roteirista inquieto. Invento finais felizes improváveis, discussões mal resolvidas, segredos guardados atrás de cortinas. E confesso: às vezes sinto vontade de acrescentar um pouco de terror, não aquele que grita, mas o silencioso — o medo de não ser visto, de não ser ouvido, de atravessar a noite apressado sem saber exatamente do quê se foge.


No fim, desligo a luz e fecho a cortina. Talvez o verdadeiro susto seja perceber que, enquanto observo os outros, alguém pode estar inventando histórias sobre mim. E que toda janela, aberta ou fechada, revela menos do que promete.

 

J.K – 19.01.26




Para quem gosta de gente que sente

        Não me explico fácil! E desconfio de quem se explica demais. Sou feito de pensamento longo, emoção funda e uma certa inquietação que não me deixa passar pela vida em modo raso. Escrevo porque é ali que me revelo — sem pose, sem personagem, sem pressa.


Tenho idade suficiente para não fingir e curiosidade demais para me acomodar. A maturidade não me tirou o desejo, só afinou o olhar. Gosto de conversas que atravessam, de gente que sustenta silêncio e de encontros que não precisam impressionar para acontecer.


Não procuro perfeição, procuro verdade. Me atraem pessoas que pensam, sentem e não têm medo de dizer “isso sou eu”. Textos, olhares e gestos sinceros sempre me ganham mais do que qualquer promessa bem ensaiada.


Assino J.K porque algumas pausas são escolhas. E talvez me conhecer seja aceitar esse convite implícito: o de descobrir alguém que não grita para ser visto, mas que, quando se mostra, não passa despercebido.

 

J.K – 19.01.26








Gal não partiu, virou trilha sonora eterna

   Faz três anos que Gal Costa nos deixou — pelo menos no plano físico. Porque, na prática, Gal nunca foi embora. Ela continua surgindo quando a saudade aperta, quando o amor transborda, quando a liberdade pede voz. Gal é dessas presenças que não se contam em datas, mas em arrepios. Eu penso nela e automaticamente penso em cor, em vento no rosto, em desejo de viver sem pedir licença.


Gal cantava como quem se despe da alma. Em Baby, ela ensinou delicadeza sem fragilidade. Em Divino maravilhoso, nos lembrou que é preciso estar atento e forte — não como ameaça, mas como postura diante do mundo. Gal nunca implorou espaço: ela ocupou. Com doçura, coragem e uma sensualidade que vinha mais da verdade do que do corpo.


Quando ouço Chuva de prata, parece que algo se ajeita por dentro. É como se Gal dissesse que, mesmo depois da tempestade, ainda há beleza caindo do céu. Já em Vaca profana, ela virou afronta elegante, provocação inteligente, mostrando que ousadia também pode ser arte fina. Gal tinha esse dom raro: cantar o que muita gente sentia, mas não sabia dizer.


O mais bonito é que Gal atravessou gerações sem envelhecer. Cada fase dela parecia uma mulher diferente — e todas verdadeiras. Tropicalista, romântica, roqueira, íntima. Em Meu bem, meu mal, ela era entrega total; em Força estranha, era mistério e transcendência. Gal cantava e a gente se reconhecia, mesmo sem saber exatamente onde doía.


Três anos depois, o silêncio que ficou não é vazio. É cheio de ecos. De vozes nossas cantando junto, de memórias embaladas por aquela voz cristalina que sabia ser doce e feroz ao mesmo tempo. Gal nos ensinou que sentir muito não é exagero — é coragem.


Se você ainda não ouviu Gal hoje, ouça. Se já ouviu, ouça de novo. Porque Gal Costa não é passado: é presente contínuo. Daqueles que aquecem, provocam e libertam. E enquanto houver alguém disposto a sentir, Gal seguirá cantando — linda, necessária e absolutamente eterna. 🎶✨


J.K – 18.01.26




quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

O amor que foi pregado na cruz

     Sempre que penso na vida de Jesus, não consigo enxergar apenas milagres, multidões e parábolas. Eu enxergo uma família. Vejo o amor silencioso de José, que assumiu um filho que não era biologicamente seu, mas foi inteiramente seu no cuidado. Vejo Maria, jovem, corajosa, dizendo “sim” sem saber o tamanho da dor que viria. E vejo Jesus crescendo em meio a esse amor simples, doméstico, feito de pão repartido, trabalho duro e fé vivida no cotidiano.

 

A gente fala muito da cruz, mas esquece do caminho até ela. Jesus ensinou amor quando o mundo ensinava lei. Ele acolheu quando o sistema excluía. Tocou os doentes, sentou-se com pecadores, confrontou hipocrisias. Não foi morto por maldade isolada — foi morto porque o amor que ele pregava ameaçava estruturas. Porque um homem que coloca o amor acima do poder desestabiliza qualquer império.

 

E então penso em Maria aos pés da cruz. Que dor é essa de ver o próprio filho sofrer? Que força é essa de permanecer ali? O amor dela não gritou vingança, não pediu fogo do céu. Ela ficou. Ficou porque o amor verdadeiro não abandona, mesmo quando tudo parece perdido. E Jesus, mesmo rasgado pela dor, ainda encontra espaço para amar, para perdoar, para cuidar. Isso me desmonta.

 

Mas a pergunta que mais me inquieta é: por que os homens crucificaram Jesus? Foi medo? Foi orgulho? Foi incapacidade de aceitar um amor que exige mudança? Talvez crucificamos tudo aquilo que nos confronta. Crucificamos quem nos chama à coerência. Crucificamos quem nos lembra que amar dá trabalho.

 

E se ele viesse hoje? Se aparecesse sem fama, sem marketing, sem seguidores? Se denunciasse nossas injustiças, nossas vaidades religiosas, nossas indiferenças? Será que o acolheríamos… ou o cancelaríamos? Será que ouviríamos sua voz… ou a chamaríamos de incômoda demais?

 

Eu confesso: às vezes tenho medo da resposta. Porque é mais fácil admirar o Cristo histórico do que seguir o Cristo vivo. Mas, no fundo, ainda acredito que o amor de Maria, de José e de Jesus continua nos chamando. Um amor que não impõe, mas convida. Que não humilha, mas transforma.

 

Talvez a cruz não seja apenas um símbolo de dor. Talvez seja o espelho onde a humanidade precisa se enxergar — e decidir, todos os dias, se vai repetir a história… ou finalmente aprender a amar.

 

 

J.K – 19.02.26