Se existe um prêmio celestial de “cliente mais trabalhoso”, eu
devo ter ganhado por unanimidade, com certeza! Meu anjo da guarda, coitado, não
tem auréola, ele tem olheiras!
Desde pequeno eu já dava sinais de que seria um projeto ambicioso
demais para o céu. Na infância, eu era arteiro! Na adolescência, ousado e
irreverente! Na faculdade? Um estudo de caso para teólogos e bartenders.
Imaginem o guri do interior desembarcando em Porto Alegre achando que tinha chegado em Nova
York! Eu trabalhava no Unibanco de dia,
estudava na Universidade do Vale do Rio dos Sinos
à noite e, aparentemente, fazia pós-graduação intensiva na vida noturna! Dormir
era um detalhe! Responsabilidade eu tinha, das 9h às 18h, e das 19h às 23h.
Depois disso, era apenas um jovem pesquisador das madrugadas porto-alegrenses.
Ah, as casas noturnas: Bar Ocidente,
Porto de Elis, Cord, Bere Ballare,
… Eu dançava sozinho na frente dos espelhos como se estivesse ensaiando
para um clipe que ninguém tinha pedido! O importante era extravasar! Se tivesse
paredão, lá estava eu na frente. Se tivesse pista, eu inaugurava! Se tivesse
saideira, eu eternizava!
Bebia como se o mundo fosse acabar naquele dia! A saideira tinha
mais capítulos que novela mexicana! No dia seguinte, eu era só dor de cabeça,
gosto de corrimão na boca e um estoque estratégico de aspirinas. Balinha de
menta virou acessório fixo! Teve fase em que pensei: “Será que sou alcoólatra?”
Mas aí lembrava que também bebia chimarrão com destilado improvisado e
concluía: não era vício, era criatividade irresponsável!
E teve a lendária aventura na BR-116. Entre uma ideia brilhante e
outra pior ainda, o pneu furou e não apertamos direito. Eu vi o pneu nos
ultrapassando e um carro desgovernado! Após o susto, eu ria sentado na faixa
enquanto os outros corriam ribanceira abaixo atrás do pneu. Meu anjo da guarda
deve ter pedido transferência naquele dia. E, não foi milagre, foi plantão
extra!
Na formatura de um amigo, resolvi inovar: bebi todas, comi nada e
protagonizei um espetáculo gastrointestinal digno de cortina fechada e de
filmes de exorcismo! Fui transportado na carroceria de um furgão, declarando
que podia voar. Não voei, ainda bem e ainda sobrevivi! Até tomei banho de roupa
e tudo, e ainda acordei no dia seguinte com a dignidade parcelada em suaves
prestações.
Hoje eu rio, e rio alto, porque sobrevivi às minhas próprias
decisões duvidosas. Virei um sujeito responsável, de família e um trabalhador
aplicado. Mas guardo com carinho essas memórias que quase me renderam uma
intervenção divina oficial. Meu anjo da guarda? Deve estar aposentado, tomando
chá de camomila e contando para os colegas: “Vocês acham que têm trabalho?
Vocês não conheceram o Jean…”
J.K – 20.02.26