domingo, 15 de março de 2026

A solidão e o peso das horas

            Existem dias em que a solidão parece ganhar voz dentro da gente. Não é um grito alto, nem um drama escancarado. É mais um silêncio que ocupa espaço, que se senta ao nosso lado sem pedir licença. Nessas horas, percebo que a solidão tem uma força estranha. Ela chega mansa, mas devora pensamentos, lembranças e até um pouco da nossa coragem.

 Com o tempo, fui entendendo que a solidão anda sempre de mãos dadas com as horas. Ela parece ser amiga do tempo, quase uma parente próxima dele. Quando estamos sozinhos, os relógios deixam de correr como antes. Os minutos ficam mais pesados, as horas caminham devagar, e o coração, às vezes, parece perder o compasso tentando acompanhar esse ritmo lento da vida.

 E não é apenas a nossa solidão que existe no mundo! Basta olhar para o céu numa noite silenciosa e perceber que até os astros parecem solitários em seus caminhos distantes. A lua, suspensa no escuro, parece guardar seus próprios segredos. As ruas vazias depois que o movimento passa também carregam um tipo de silêncio que lembra a gente de quantas histórias existem dentro de cada pessoa.

 Mas talvez a maior descoberta seja entender que a solidão não é apenas uma fera que devora! Ela também revela! Revela o valor de uma conversa simples, de um abraço verdadeiro, de alguém que se senta ao nosso lado sem pressa. No fundo, a solidão existe para nos lembrar de algo muito maior: as horas podem até caminhar devagar, mas a vida só encontra sentido quando há alguém para dividir o tempo com a gente.

J.K – 14.03.26




Há amores que são despedida

       Tudo na vida tem um tempo, inclusive a própria vida! Hoje estamos aqui, respirando o mesmo sentimento, mas amanhã pode ser apenas lembrança. E talvez seja essa consciência que me faz escrever com o coração aberto e a voz serena. Não é falta de carinho! Não é ausência de sentimento! É, justamente, porque sinto que preciso ser honesto contigo e comigo.

 

 Eu gosto de ti! Gosto da tua presença, das conversas, daquilo que foi leve quando começou. Mas nosso relacionamento não deslancha! Chegamos a um ponto em que não avançamos, apenas insistimos. E junto com essa estagnação vieram cobranças, expectativas de mudanças que nunca aconteceram. E, sendo sincero, acredito que jamais acontecerão! Não porque alguém seja insuficiente, mas porque talvez não sejamos compatíveis na medida que um amor precisa para florescer.

 

Eu trabalho, basicamente, com mulheres. Isso faz parte da minha vida, da minha profissão, da minha história. Ciúmes podem existir, mas não podem se transformar em desconfiança constante ou em cobranças que sufocam. Da mesma forma, eu jamais poderia te cobrar algo além do que me ofereceste, principalmente sabendo desde o início da tua condição. Eu escolhi estar contigo assim! E justamente por ter escolhido consciente, não tenho o direito de transformar isso em ressentimento.

 

Hoje, mesmo magoado, eu escolho abrir mão! Não como quem desiste por raiva, mas como quem entende que amar também é saber a hora de soltar. O que posso te oferecer agora é amizade, sincera, respeitosa, mas sem espaços para cobranças, vigilâncias ou perguntas que nos machuquem. Uma amizade madura, onde cada um segue sua vida com liberdade e dignidade.

 

Me perdoa se dói1 Também dói em mim! Mas talvez o gesto mais bonito que possamos fazer seja este pacto silencioso: sermos felizes, ainda que em caminhos diferentes. Guardando o que foi bom, aprendendo com o que não deu certo e respeitando o tempo que tivemos. Às vezes, amar é agradecer, e deixar ir.

 

J.K – 12.02.26




Chuva vista do quarto andar

         Da janela do quarto andar do meu apartamento, na rua Os 18 do Forte, observo a chuva cair como quem assiste a um diálogo antigo. Não é barulho, é conversa! Cada gota parece uma palavra dita com calma, como se o céu tivesse decidido falar diretamente com os homens, sem intermediários, sem pressa, sem ruído desnecessário.

 

 A chuva tem esse jeito de bênção discreta! Não anuncia, não pede licença, apenas acontece. Gosto de pensar que é Deus passando a mão sobre o mundo, regando a humanidade como quem acredita, apesar de tudo, que ainda vale a pena fazer brotar. Tudo cresce com a chuva: as plantas, os silêncios, as esperanças que estavam meio secas dentro da gente.

 

 Ela lava as ruas, os telhados, os carros parados! Mas não para aí! A chuva também escorre por dentro da alma. Vai levando embora poeiras invisíveis, cansaços acumulados, dores que a gente nem sempre sabe nomear. É como se, por alguns minutos, fosse permitido recomeçar sem explicar nada a ninguém.

 

 Fico ali, olhando, enquanto o tempo desacelera! A cidade muda de som, o mundo parece mais honesto, menos performático. A chuva não finge, não promete, não se exibe! Ela apenas cumpre o seu papel sagrado: cair, molhar, limpar, fazer germinar.

 

 E talvez seja por isso que me sinto tão inteiro nesses momentos. Porque, enquanto chove lá fora, algo também se organiza aqui dentro. Como se o céu, generoso, estivesse dizendo em gotas: calma! Ainda dá. Ainda cresce! Ainda floresce! 

 

J.K – 07.02.26








sábado, 14 de março de 2026

Sábado entre canecas, vozes e encantos

        Sábado costuma chegar devagar aqui em casa. Ele não bate à porta, entra de mansinho, entre uma caneca de café e outra (sim, continuo viciado em café e em canecas, assumo sem culpa!). É nesse ritmo lento que a música ganha espaço. Ella Fitzgerald surge como quem sabe exatamente onde tocar a alma, cantando Jobim e Cole Porter como se tivesse sido convidada pessoalmente por cada nota.

 

 A voz de Ella não canta: ela transporta! Há algo de mágico nesse timbre que não se explica, só se sente. É como se o tempo aceitasse sentar no sofá, cruzar as pernas e ouvir junto. Ela me leva para lugares que não sei exatamente onde ficam, mas que reconheço imediatamente como meus. Um encanto que fascina, embriaga e deixa a gente meio tonto e do melhor jeito possível.

 

 Cole Porter, confesso, sempre foi um desses amores antigos, daqueles que não envelhecem. Ev’ry Time We Say Goodbye e So in Love soam como cartas abertas, escritas para quem sabe ouvir com o peito. Na voz de Ella, essas canções ganham outra textura, outro peso, outro silêncio entre uma frase e outra. É ali, nesses intervalos invisíveis, que mora a emoção.

 

 E então vem Jobim. Wave e Só tinha que ser com você parecem ter sido compostas já esperando por ela, como um encontro que demorou, mas precisava acontecer. A bossa encontra o jazz, o Rio encontra o mundo, e tudo faz sentido. Ella não visita essas canções, ela mora nelas.

 

 Talvez seja isso que me prende tanto à boa música: ela não exige pressa, nem distração. Ela pede presença! Entre goles de café e suspiros distraídos, descubro que algumas vozes não apenas acompanham nossos dias, elas os traduzem. E, naquele sábado qualquer, Ella Fitzgerald faz exatamente isso: diz, em música, tudo aquilo que eu nem sabia como explicar. 

 

J.K – 07.02.26




 

Bom dia! Mas só depois das oito, por favor!

       Vou confessar uma coisa que talvez muita gente também pense, mas poucos têm coragem de dizer em voz alta. Eu adoro educação! Adoro gente gentil, educada, simpática! Mas existe um tipo muito específico de educação que anda faltando nas redes sociais: a educação com o horário dos outros. Porque, sinceramente, sábado e domingo às quatro ou cinco da manhã não é “bom dia!”. É praticamente um atentado contra o sono alheio! 


Tem gente que acorda cedo, eu sei! Parabéns, inclusive! Deve ser ótimo ver o sol nascer, ouvir os passarinhos e sentir aquele cheiro de café recém passado. Mas transformar essa experiência espiritual em uma avalanche de mensagens no celular dos outros, nesse horário, é quase um esporte radical. Principalmente para quem ainda está no meio do segundo sonho da noite, tentando decidir se ganha na loteria ou se casa com a pessoa certa.


E o problema nem é a mensagem em si. “Bom dia”, flores, solzinho, versículo, gif animado, tudo muito bonito. O problema é o horário! Porque nem todo mundo deixa o celular no silencioso. E, quando aquele plim invade o quarto às cinco da manhã, a pessoa acorda achando que é uma emergência. Quando olha, é uma imagem com um girassol sorrindo e a frase: “Que seu dia seja abençoado!”. Nessa hora, o único pensamento realmente abençoado é: “Meu Deus, por que eu não silenciei esse grupo?”. Pior que isso são as mensagens de trabalho. Me poupe! A minoria dos seus contatinhos não vai comprar algo ou querer saber de suas promoções ou lançamentos às quatro ou cinco da manhã.


Claro, eu entendo que existem contatos que a gente não pode simplesmente apagar da vida. Tem colega de trabalho, cliente, parente, aquela tia que manda vinte mensagens por dia e ainda pergunta se você viu todas. A vida adulta tem dessas coisas! A gente aprende a conviver, respirar fundo e seguir em frente.


Mas deixo aqui um humilde pedido público, quase um manifesto em defesa do sono: se acordou às cinco da manhã no fim de semana e está cheio de energia, maravilhoso! Vá ler um livro, lavar o carro, caminhar, ir à academia, tomar um chimarrão, preparar um café caprichado, conversar com o vizinho que também acorda cedo, transar e até filosofar sobre a vida no boteco da esquina. A lista é grande e cheia de opções dignas. Só não precisa acordar o resto do planeta junto.


Porque mensagens de bom dia e de trabalho são bonitas, carinhosas e bem-vindas. Mas, acredite em mim, elas continuam lindas às oito da manhã. E, até lá, muita gente ainda está ocupada fazendo uma coisa muito importante: dormindo em paz.

 

J.K – 14.03.26




Casa cheia, coração em festa

       Fim de semana chega, o corpo ainda reclamando de duas semanas na estrada, mas basta a campainha tocar para o cansaço pedir licença. Receber visita sempre foi bom, mas quando é sobrinho, aí muda tudo! A casa ganha outro ritmo, outro som, outra alegria. Só tem um detalhe difícil de engolir: aquele guri cresceu! Cresceu tanto que já é homem feito, casado, com vida própria. E, mesmo assim, pra mim, continua sendo “o guri”!

 

 Eles andam pelo mundo, morando em Porto Alegre, circulando por Caxias do Sul, reencontrando amigos, família, histórias. E no meio de tantas opções, escolhem ficar aqui! Isso diz muita coisa! Confesso que me enche de orgulho saber que minha casa segue sendo abrigo, porto seguro, lugar de pouso! Deve ser que o tiozão aqui acertou alguma coisa na arte de bem receber.

 

 Aqui não tem cobrança, não tem relógio, não tem interrogatório. A regra é simples: sintam-se em casa! Comem quando der fome, saem quando der vontade, voltam quando o coração pedir. Não precisam dar satisfação. A presença já é suficiente! Mesmo adultos, casados, cheios de compromissos, pra mim continuam sendo duas crianças crescidas, dessas que a gente protege só de olhar.

 

 Sou suspeito, eu sei, mas ele é dessas pessoas raras: doce no trato, educado no gesto, prestativo sem alarde, amoroso sem exagero. Um nerd no melhor sentido da palavra: inteligente, dedicado, trabalhador, com aquele brilho curioso nos olhos. Um geninho, desses que dão orgulho silencioso, daqueles que a gente observa e pensa: “o mundo está em boas mãos”.

 

 E aqui, entre nós, em tom bem confessional: eu adoro quando eles vêm, mesmo sabendo que passam mais tempo com os amigos do que comigo. Está tudo certo! A vida é assim mesmo! Cada um segue seu caminho, constrói sua história, mas saber que ainda voltam, ainda escolhem, ainda pertencem! Ah, isso não tem preço! Porque no fim das contas, viver é isso! E quando é em família, fica ainda melhor!

 

J.K – 07.02.26




sexta-feira, 13 de março de 2026

Do jeito que sou, sem legenda

       O que eu mais quis, no fundo, nunca foi mudar ninguém. Foi ser aceito inteiro, com as partes silenciosas e as partes apressadas. Com a timidez que chega antes da coragem e com o amor que, quando vem, não sabe ser pouco. Não sei fingir versões melhores de mim! Eu só sei chegar como sou!

 

 Carrego um jeito contido, quase cuidadoso demais, como quem pede permissão para sentir. Mas também trago impulsos que não avisam, vontades que atravessam o corpo rápido, sem cerimônia. Sou feito dessas duas forças que se estranham e se completam: o pudor que observa e o desejo que avança quando encontra espaço.

 

 Vivo tentando equilibrar essa liberdade meio desajeitada que me empurra para os encontros certos. Não forçados, não ensaiados! Aqueles que simplesmente acontecem, quando duas trajetórias se cruzam sem estratégia. É aí que tudo flui melhor, quando ninguém precisa se explicar demais.

 

 Gosto dessa aproximação sem manual, desse chegar devagar que de repente já está perto. Existe algo muito honesto nisso: deixar que as coisas se acomodem sozinhas, no ritmo que pedem. Quando é assim, fica fácil ficar. Fica leve! Fica verdadeiro!

 

 No fim, é só isso que eu peço: ser acolhido sem edição. Porque quando aceitam a gente como a gente é, o encontro deixa de ser esforço e vira lugar.

 

J.K – 07.02.26