quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

O amor que foi pregado na cruz

     Sempre que penso na vida de Jesus, não consigo enxergar apenas milagres, multidões e parábolas. Eu enxergo uma família. Vejo o amor silencioso de José, que assumiu um filho que não era biologicamente seu, mas foi inteiramente seu no cuidado. Vejo Maria, jovem, corajosa, dizendo “sim” sem saber o tamanho da dor que viria. E vejo Jesus crescendo em meio a esse amor simples, doméstico, feito de pão repartido, trabalho duro e fé vivida no cotidiano.

 

A gente fala muito da cruz, mas esquece do caminho até ela. Jesus ensinou amor quando o mundo ensinava lei. Ele acolheu quando o sistema excluía. Tocou os doentes, sentou-se com pecadores, confrontou hipocrisias. Não foi morto por maldade isolada — foi morto porque o amor que ele pregava ameaçava estruturas. Porque um homem que coloca o amor acima do poder desestabiliza qualquer império.

 

E então penso em Maria aos pés da cruz. Que dor é essa de ver o próprio filho sofrer? Que força é essa de permanecer ali? O amor dela não gritou vingança, não pediu fogo do céu. Ela ficou. Ficou porque o amor verdadeiro não abandona, mesmo quando tudo parece perdido. E Jesus, mesmo rasgado pela dor, ainda encontra espaço para amar, para perdoar, para cuidar. Isso me desmonta.

 

Mas a pergunta que mais me inquieta é: por que os homens crucificaram Jesus? Foi medo? Foi orgulho? Foi incapacidade de aceitar um amor que exige mudança? Talvez crucificamos tudo aquilo que nos confronta. Crucificamos quem nos chama à coerência. Crucificamos quem nos lembra que amar dá trabalho.

 

E se ele viesse hoje? Se aparecesse sem fama, sem marketing, sem seguidores? Se denunciasse nossas injustiças, nossas vaidades religiosas, nossas indiferenças? Será que o acolheríamos… ou o cancelaríamos? Será que ouviríamos sua voz… ou a chamaríamos de incômoda demais?

 

Eu confesso: às vezes tenho medo da resposta. Porque é mais fácil admirar o Cristo histórico do que seguir o Cristo vivo. Mas, no fundo, ainda acredito que o amor de Maria, de José e de Jesus continua nos chamando. Um amor que não impõe, mas convida. Que não humilha, mas transforma.

 

Talvez a cruz não seja apenas um símbolo de dor. Talvez seja o espelho onde a humanidade precisa se enxergar — e decidir, todos os dias, se vai repetir a história… ou finalmente aprender a amar.

 

 

J.K – 19.02.26




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