sábado, 28 de fevereiro de 2026

Você, esse intervalo sem nome

      Você nunca chegou inteira, nem saiu por completo! Sempre foi essa presença entre um passo e outro, esse quase que permanece. Quando vinha, trazia o vento da desordem; quando ia, deixava o silêncio em desalinho. E eu, mesmo sabendo, aprendia a te esperar como quem aceita que algumas coisas não pedem lógica, apenas espaço.


Houve promessas que fiz só para mim, todas manhas antes do amanhecer. Eu dizia que não estaria mais ali, que teu retorno encontraria portas fechadas. Mas você sempre voltava pelo mesmo lugar onde eu deixava aberto por mais que eu negasse. Enquanto se perdia no mundo, eu ficava, fazendo do tempo um pretexto para não te esquecer.


Você nunca pediu cuidado, mas eu te dei abrigo! Nunca pediu perdão, mas eu ofereci descanso! Com gestos pequenos, desarmava minhas defesas, espalhava desordem doce nos meus sentidos. Tocava onde não havia palavra, bagunçava o que estava quieto, e partia como se nada tivesse acontecido, deixando tudo em mim aceso.


Há mulheres que ensinam a ficar! Você me ensinou a sentir! A ficar vulnerável, exposto, sem escudos. No teu jeito leve, quase criança, havia uma ilusão que não doía, apenas encantava. E talvez seja isso: você nunca foi permanência, mas foi marca. Não ficou, mas também nunca passou.

 

J.K – 24.01.26








Quem é você?

      Há alguém que atravessa meus pensamentos sem pedir licença. Não sei quando começou, nem como ganhou espaço, só sei que entrou. Ocupou meus sonhos, meus desejos mais guardados, como se já conhecesse cada canto de mim. Foi chegando devagar e, quando percebi, já estava dentro do meu peito, sem contrato, sem aviso, sem promessa.


Essa presença me desarma! Confunde minhas certezas, bagunça o que eu achava que estava no controle. Quando me envolve, me leva para lugares que eu nunca tinha visitado, nem em imaginação. O corpo responde, a cabeça se perde, e eu deixo! Adoro! Porque há toques que não pedem permissão, apenas acontecem!


O mais curioso é o efeito que isso causa em mim! Coisas antigas, defeitos que sempre carreguei, foram ficando mais leves, quase invisíveis. Não houve esforço, nem conversa, nem tentativa. Simplesmente deixaram de doer! Como se alguém tivesse mexido nos meus sentidos com cuidado e retirado o que já não precisava estar ali.


E talvez o mais desconcertante seja isso: fui amado sem ter pedido, envolvido sem ter planejado, tocado sem ter previsto. E, nesse caminho silencioso, acabei amando também mesmo antes de entender quem era essa pessoa. Talvez eu nunca saiba responder completamente. Talvez a pergunta continue sendo parte do encanto. Porque algumas presenças não se explica, apenas se sentem.

 

 

J.K – 24.01.26




Eu não sou quem você pensa que sou

      Eu não sou quem você pensa que sou! Aliás, às vezes nem eu sei exatamente quem sou e isso me diverte! Fujo dos padrões como quem foge de uma camisa apertada demais! Não nasci para caber em moldes prontos. Prefiro ser o sujeito estranho no canto da sala, observando tudo com um meio sorriso e um pensamento atravessado, do que mais um rosto diluído numa multidão de iguais. Se estou sozinho, quase sempre é por incompatibilidade de alma, não por falta de companhia.

 

Dizem que pareço ingênuo! Há quem jure que sou distraído, até inocente! Mas, mal sabem que penso demais, que enxergo o que não digo, que escuto até o silêncio das entrelinhas. Inteligência, para mim, é afrodisíaco! Conversa boa me ganha mais do que qualquer aparência. Então, me seduza com ideias, com argumentos, com profundidade. O resto é cenário! E cenário, você sabe, muda fácil!

 

Sou um livro aberto, mas com muitas páginas dobradas, rabiscadas, algumas arrancadas pelo tempo. Não quero te impressionar com currículo, sobrenome ou saldo bancário. Também não me impressiona o seu! O que me interessa é o que você faz quando ninguém está olhando. Sou estranho, sim! Estranhamente leal! Estranhamente intenso! Estranhamente disposto a ajudar todo mundo, mesmo quando estou cansado. Meu coração é maior do que minha prudência e isso, confesso, já me custou caro!

 

Minha vida vista de fora pode parecer comum! Trabalho como um cdf aplicado, organizado, responsável, quase previsível! Sou família até a medula: gosto de mesa cheia, conversa longa, abraço demorado. Cumpro horários, entrego resultados, pago boletos. Mas por dentro há um universo paralelo! Entre quatro paredes, as da alma, antes de qualquer outra coisa, eu penso alto, sinto forte, desejo sem pedir licença. Não sou de joguinhos. Se for para viver, que seja inteiro!

 

E sobre assombrações? Eu não temo casas antigas nem corredores escuros! Tenho medo é dos vivos! Dos que sorriem com cálculo, dos que prometem sem intenção, dos que machucam por esporte. Lugares guardam memórias! Pessoas guardam intenções! E é aí que mora o perigo ou o milagre. Somos nos que decidimos nosso destino!

 

Sou esse paradoxo ambulante: estranho e acolhedor, reservado e intenso, disciplinado e caótico por dentro. Não quero ser entendido por todos! Quero ser reconhecido por poucos! Porque no fundo, bem no fundo, eu não sou quem você pensa que sou! Sou mais!

 

J.K – 20.02.26




sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Um trisal, um swing e um caos chamado eu

      Nunca imaginei que minha vida chegaria a um ponto em que eu seria convidado para um trisal. Sim, eu, sempre digo: “dois é bom, três é demais para mim” de repente me vi encarando algo que parecia mais roteiro de filme do que convite real.


Cheguei lá me sentindo como turista sem mapa em país estranho. Olhei para o ambiente e pensei: “Ok, todo mundo parece saber o que está fazendo, menos eu”! Me senti deslocado, quase como se tivesse entrado em um baile de máscaras sem máscara, só com minha cara de espanto e surpresa ao mesmo tempo.


No começo tentei fingir que sabia o que estava acontecendo. Sorria, balançava a cabeça, dizia “claro, claro…” como se tudo fizesse sentido. Mas, internamente, eu estava um mix de confusão, curiosidade e vontade de voltar para casa com uma taça de vinho e minha própria companhia.


Não vou mentir: foi uma experiência diferente e não sei se gostei ou não! Uma experiência que me ensinou algo fundamental: sexo, pelo menos para mim, é uma aventura que funciona melhor a dois. A intimidade que cabe em um casalzinho, naquele ritual de risadas, toque e olhar cúmplice, simplesmente não se traduz em trio, pelo menos para este sujeito aqui.


Ainda assim, saí dali com histórias para rir sozinho no banho, memórias de situações tão absurdas que até a imaginação precisaria de pausa para digerir. E confesso: apesar de não ter sido meu ponto ideal de prazer, a experiência foi válida! Porque, às vezes, precisamos nos perder para lembrar exatamente onde nos sentimos em casa. E, para mim, casa é a dois!


No fim, voltei para meu sofá, sozinho, feliz e leve. Com a certeza de que, se o mundo inventar quádruplos ou quintetos, “Meu Guri” vai passar batido, porque minha zona de conforto tem duas pessoas: eu e meu par. Não cabe mais ninguém, desculpem!

 

J.K – 19.01.26




quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Tem dias em que a vida resolve andar de Havaianas tortas

      Tem dias em que a gente não acorda com o pé esquerdo. A gente acorda tropeçando nos dois pés ao mesmo tempo! E olha que nem vou me aprofundar muito no assunto “pé esquerdo” pra não gerar confusão, cancelamento ou uma crise diplomática com as Havaianas. O fato é que, hoje, minha vida simplesmente descarrilhou. Saiu dos trilhos, ignorou qualquer tentativa de freio e seguiu sem governo até boa parte da tarde, como um trem turístico conduzido por alguém que nunca viu um mapa.

 

E não fui só eu! O universo decidiu que seria um ótimo dia para as pessoas virem desabafar comigo. Clientes, colegas, conhecidos… uma espécie de plantão emocional improvisado. Alguns relatos eram tão densos que tudo o que coube foi ouvir. E ouvir de verdade! Porque há dores que não pedem resposta, só presença. A gente escuta, balança a cabeça, respira fundo e pensa: “ainda bem que hoje eu só preciso escutar”.

 

Já em outros momentos, confesso, arrisquei um ou dois conselhos. Mas sempre com aquele cuidado de quem sabe que mal consegue administrar a própria bagunça. Afinal, se eu não tenho manual nem controle remoto da minha vida, que ousadia seria querer orientar a dos outros? Um perigo público! Um conselheiro sem credenciais, com prazo de validade emocional vencido.

 

No fim das contas, percebo que quase ninguém quer soluções mirabolantes. O que a gente quer mesmo é atenção. Um abraço sincero, um sorriso que não seja automático, alguém que nos escute sem olhar o relógio ou o celular. Se consegui oferecer isso hoje, ótimo! Se não, ao menos tentei! E, convenhamos, em dias descarrilhados, tentar já é um baita feito.

 

J.K – 20.01.26




 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Quando a vida pede balanço

      Há um momento em que a gente sente que não dá mais para empurrar as coisas para depois. Não porque o fim esteja batendo à porta, mas porque a consciência pede um balanço honesto. É como se a vida puxasse uma cadeira, sentasse à nossa frente e dissesse: fala agora. Sem plateia, sem maquiagem, sem ensaio. Apenas verdade.

 

Olho para trás e vejo um caminho que não foi reto, nem fácil, mas foi meu. Fui por estradas que muitos evitariam, atravessei atalhos que não estavam no mapa e, às vezes, me perdi só para ter certeza de onde não queria ficar. Não fiz tudo certo, mas fiz do jeito que consegui, com o que eu era em cada fase.

 

Sim, houve excessos! Momentos em que abracei mais do que podia sustentar, promessas grandes demais para um coração cansado. Mas também houve coragem! Aquela coragem silenciosa de continuar mesmo quando a dúvida sentava no banco do carona e tentava assumir o volante. Engoli o medo, cuspi o orgulho e segui em frente.

 

Amei com intensidade, ri quando deu, chorei quando não tinha alternativa. Caí mais de uma vez, colecionei tropeços e algumas derrotas que doeram fundo. Ainda assim, quando penso em tudo isso, não sinto vergonha. Sinto espanto. Espanto por ter vivido tanto, por ter sentido tanto, por ter permanecido inteiro apesar das rachaduras.

 

No fim das contas, talvez isso seja tudo o que importa: poder dizer que a história contada foi verdadeira. Que as palavras ditas vieram do peito, não de um roteiro alheio. Que os golpes recebidos não me tiraram a dignidade de permanecer de pé.

 

Se existe um legado, é esse: não ajoelhei diante da vida! Encarei! E, com todas as imperfeições, fiz à minha maneira.

 

J.K – 20.01.26




terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

O sagrado de voltar

     Morar sozinho me ensinou que a casa é mais do que abrigo. É templo. Quando retorno no fim do dia e fecho a porta, sinto que algo em mim também se recolhe. O mundo fica do lado de fora, e eu entro em mim mesmo, com respeito e calma.

 

O trabalho ocupa horas, exige entrega, consome forças. Faço o que me cabe, sigo o fluxo do dia, enfrento o que surge. Mas carrego a certeza silenciosa de que cada jornada cumprida é uma bênção disfarçada de esforço. Nem todo dia é leve, mas todo dia é concedido.

 

Ao chegar, o primeiro gesto é a gratidão. Pelo dia que passou, pelo sustento que não faltou, pela saúde que permitiu ir e voltar. Agradeço também pelas pessoas que não dividem o teto comigo, mas habitam meu coração: a família, guardada na memória e no afeto; os amigos, espalhados pela vida, mas presentes nas minhas orações silenciosas.

 

No silêncio da casa, encontro um tipo raro de presença. Não me sinto só. Sinto-me acompanhado por algo maior, que não precisa de nome. Há paz em reconhecer que estar comigo é também estar amparado. O tempo desacelera, a alma respira, e tudo encontra seu lugar.

 

Assim, dia após dia, sigo. Voltar para casa se transforma em rito, o descanso em agradecimento, e a rotina em testemunho. Amanhã o sol nascerá outra vez, e eu estarei pronto, não por força própria, mas pela graça de simplesmente continuar.

 

J.K – 20.01.26




segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Quando falo contigo, mãe!

     Quando me dirijo a ti, Nossa Senhora, não é por hábito nem por costume aprendido. É por amor! Um amor simples, de filho que reconhece o cuidado mesmo quando não entende os caminhos. Falar contigo é repousar a alma, é saber que há um colo invisível sustentando cada passo meu.

 

Tenho caminhado como posso, com acertos e falhas, levando comigo a fé que nem sempre é forte, mas é sincera. Em ti encontro ternura e firmeza, aquela presença que não julga, mas orienta. Quando o coração se inquieta, é teu nome que acalma meus pensamentos.

 

Coloco diante de ti tudo o que sou: minhas alegrias discretas, minhas dores silenciosas, minhas dúvidas humanas. Peço que me ajudes a viver com mais mansidão, a amar com mais verdade e a confiar mesmo quando não vejo clareza no caminho. Ensina-me a aceitar o tempo, a cruz diária e o mistério da vida com humildade.

 

E quando chegar o dia em que eu tiver cumprido minha jornada aqui, sei que não estarei só. Confio que estenderei as mãos e serei acolhido como filho. Não com medo, mas com paz. Porque quem caminha sob teu cuidado aprende que o fim não é ausência, é encontro!

 

Até lá, permanece comigo, Mãe! Guarda meu coração, guia meus passos e fortalece minha fé. Amo-te com amor de filho, e é nesse amor que sigo, hoje, amanhã e além.

 

J.K – 20.01.26




 

domingo, 22 de fevereiro de 2026

A cidade desfila dentro da gente

     Domingo, quarto dia da 35ª Festa Nacional da Uva, e eu fui assistir ao segundo desfile cênico na Caxias do Sul. Confesso: fui curioso… voltei emocionado! O desfile é ágil, vibrante, daqueles que passam num sopro. E, de repente, surge uma italiana bonita de encher os olhos, dessas que fazem a gente querer largar tudo e dançar tarantela no meio da rua. No final, muitos turistas fizeram exatamente isso! E eu quase fui junto!

 

A história é bem contada, as coreografias são ensaiadas com capricho, as vestimentas parecem ter saído de fotografias antigas que ganharam movimento. Mas o que mais me tocou foi outra coisa: em alguns momentos, eu me senti parte daquele cortejo. Não era só um espectador! Era alguém que também estava sendo contado ali. Afinal, foi essa cidade que me acolheu há 40 anos, que me deu chão, sotaque e pertencimento.

 

Eu, que carrego sobrenome alemão e português, ouso brincar que sou um “gringo avesso”, um italiano de coração emprestado. Falo alto, gesticulo, misturo tradição com afeto e tenho esse jeito meio colono que já virou minha assinatura. Ser filho adotivo de Caxias é isso: a gente escolhe amar e quando escolhe, ama com intensidade.

 

Foi bonito ver a Sinimbu lotada, gente sorrindo, abanando para as colônias que desfilavam com orgulho. Impressiona também a organização: as ruas fecham, o espetáculo acontece, e logo tudo volta ao lugar como mágica. Em minutos, o Centro respira de novo. É um esforço coletivo que emociona tanto quanto o próprio desfile.

Por isso, deixo aqui um convite sincero: se você ainda não assistiu, assista! Permita-se uma hora de encantamento. O desfile passa rápido e quando você percebe, já acabou… mas fica! Fica no peito, como ficam as boas histórias contadas ao redor de um filó. 🍇✨

 

J.K – 22.02.26






As mulheres que se reconhecem no próprio encanto

    Todas as mulheres são bonitas! Todas! Cada uma à sua maneira, no seu tempo, no seu corpo, na sua história. A beleza feminina não mora em um padrão, mora na forma como cada mulher ocupa o mundo, como caminha, fala, sente e se sustenta. Algumas encantam pela delicadeza, outras pela força, outras pelo silêncio! E o mais bonito é que nenhuma beleza anula a outra — elas coexistem.


Dito isso, em tom confessional e sem culpa, há mulheres que me encantam mais. Não porque sejam melhores, mas porque despertam algo específico em mim. Adoro mulheres de uniforme! Qualquer uniforme! Talvez seja um fetiche, talvez seja admiração, talvez seja a mistura de postura, identidade e função. Uniformes contam histórias, revelam rotinas, mostram que ali existe alguém que assume um papel no mundo. E isso, para mim, é profundamente sedutor.


Também me seduz — e muito — a inteligência. Sempre digo que inteligência é afrodisíaco! Nada se compara à intimidade de uma boa conversa, à troca de ideias, ao riso que nasce de uma frase bem colocada. Gosto de mulheres com quem se pode falar por horas, dividir pensamentos, silêncios, afetos. Aquelas conversas que acontecem sem pressa, depois do corpo descansar, com o calor ainda presente, e que fazem tudo recomeçar de forma natural, quase inevitável.


E não, nunca me atraíram corpos perfeitos ou moldados por exigências externas. O que me encanta são corpos reais. Mulheres com curvas, com uma leve barriguinha, com lugares onde se pode tocar, segurar, percorrer sem medo. Corpos que acolhem, que respondem ao toque, que têm história. É bonito demais quando o corpo da mulher não pede permissão para existir — ele simplesmente existe, e isso basta.


No fim, talvez o que mais me encante seja isso: mulheres que não tentam caber, mas ocupam. Que se reconhecem, se aceitam e seguem. Porque quando uma mulher se sente confortável em quem é, ela não apenas é bonita — ela é inesquecível.

 

J.K – 24.01.26




sábado, 21 de fevereiro de 2026

Quando o luto tem nome de mulher

    Eu tinha prometido dar um tempo nos meus escritos. Disse que precisava respirar, que talvez fosse melhor silenciar um pouco o coração. Mas um leitor me pediu para não parar… e hoje eu escrevo não por disciplina, nem por vaidade — escrevo porque estou triste demais para calar. Hoje escrevo com o coração partido. Perdi duas amigas!


A primeira foi a Andrea. Da minha idade. Estudamos juntos, dividimos corredores, risadas, aquela fase da vida em que a gente acredita que o mundo é eterno. Ela partiu! Não sei o motivo! Não tive coragem de ligar para a irmã. Talvez por medo da resposta, talvez por não saber o que dizer. Como será cremada em Porto Alegre, não estarei no último adeus. E isso me dói! Dói essa despedida sem abraço, sem olhar, sem “até logo”.


Mas o que me atravessou de um jeito quase insuportável foi a notícia da Rose. Minha amiga! Cliente! Uma mulher trabalhadora, presente, viva. Foi encontrada morta nesta madrugada. Estrangulada. A suspeita recai sobre o próprio marido, Ari, que depois também tirou a própria vida. E eu só consigo pensar no filho que ficou. Um filho que precisa de atenção especial. Um filho que agora precisará aprender a viver com um vazio impossível de explicar.


Eu me pergunto — e que me perdoem os homens — o que está acontecendo conosco? O que está acontecendo aqui no sul do país? Quantas mulheres mais precisarão morrer para que algo mude? Os feminicídios se acumulam nas manchetes, nas conversas sussurradas, nas estatísticas frias… mas não são números. São nomes! São histórias! São mães! São filhas! São amigas como as minhas! Que amor é esse que sufoca? Que orgulho é esse que mata? Que posse é essa que transforma afeto em sentença?


Se um relacionamento termina, que termine! Que doa! Que a gente chore! Que se recolha! Que faça luto. Mas que viva! Ninguém — absolutamente ninguém — tem o direito de tirar a vida de outra pessoa. Nem a própria! Amar não é possuir1 Amar não é vigiar1 Amar não é destruir1 Às vezes, ficar sozinho é um ato de maturidade. Às vezes, a solidão cura1 E um novo amor, quando tiver que vir, virá leve — não como ameaça, mas como recomeço.


Hoje eu escrevo com lágrimas que talvez nem apareçam na telinha do computador ou do celular, mas pesam na alma. Escrevo porque não quero que a morte da minha amiga seja apenas mais um registro. Escrevo porque preciso acreditar que a gente ainda pode aprender a amar sem ferir, a partir sem matar, a perder sem destruir. E, principalmente, porque não quero me acostumar com a notícia de que mais uma mulher foi silenciada.


Que a gente não se cale! Que a gente não normalize! Que a gente não aceite!


J.K - 21.02.26




Talvez eu esteja cansado de falar de mim

     Eu tenho tentado escrever sobre o que está acontecendo no mundo. Sair um pouco do meu umbigo literário e olhar para fora. Já me meti a falar da prisão de Maduro, das polêmicas envolvendo comerciais da Pepsi e das Havaianas (que, aliás, eu adorei, pronto, falei!), do carnaval e aquela homenagem ao presidente que mais parecia horário eleitoral gratuito, da Festa da Uva que está tomando conta de fevereiro e março, e até da Tatiana Sampaio, essa gigante da ciência que faz a gente acreditar que o Brasil ainda produz heroínas de jaleco. Eu olho para tudo isso e penso: estou ficando mais atento… ou só mais opinativo?

 

Confesso que estava começando a cansar de escrever sobre amores — os que deram certo, os que não deram, os que deram errado mas renderam texto. Cansado de transformar minhas próprias dores em parágrafos organizados, de analisar meu cotidiano como se eu fosse personagem principal de uma série que ninguém pediu para assistir. Convenhamos: eu não sou celebridade, não sou influenciador, não lanço tendência. Sou só alguém com teclado, opinião e um certo excesso de sentimentos.

 

E talvez aí esteja a graça… ou o problema. Porque escrever sobre mim era confortável. Eu controlo a narrativa, escolho o drama, exagero na vírgula. Quando falo de política, de cultura, de ciência ou de festas populares, eu me exponho diferente. Posso desagradar. Posso provocar. Posso até errar. E, veja só, isso dá um certo frio na barriga — que é ótimo, mas cansa também.

 

Depois de tantos textos publicados, tantas reflexões jogadas ao vento digital, eu comecei a pensar se não seria hora de dar um tempo. Respirar. Ficar em silêncio. Talvez me renovar. Talvez me reinventar. Ou talvez só descansar dessa necessidade de transformar tudo em texto. Porque escrever é maravilhoso — mas também é se despir em praça pública. E, convenhamos, até quem gosta de palco precisa sair de cena de vez em quando.


J.K – 20.02.26




sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Os verdadeiros heróis usam jaleto

     Eu confesso: muitas vezes também me deixo levar pelo brilho fácil das telas. Rolo o feed, vejo dancinhas, polêmicas, vaidades embaladas em segundos… e quase sem perceber estou ali, dando tempo e atenção ao que amanhã já será esquecido. A relevância parece ter virado sinônimo de seguidores. Mas, no fundo, algo em mim se pergunta: é isso mesmo que merece o nosso aplauso?

 

Enquanto isso, longe dos holofotes digitais, uma brasileira vestindo jaleco faz história. Tatiana Sampaio conduziu uma pesquisa com células-tronco que permitiu que seis pessoas tetraplégicas recuperassem movimentos e voltassem a andar. Se isso não é extraordinário, eu não sei mais o que é! Vidas que estavam limitadas voltaram a experimentar autonomia, esperança, dignidade. E me dói perceber como algo tão gigantesco ocupa tão pouco espaço nas nossas conversas diárias.

 

Por que vibramos mais com o supérfluo do que com o que realmente transforma destinos? Por que sabemos o nome de influenciadores, mas ignoramos quem dedica a vida a curar, pesquisar, salvar? Não é uma crítica amarga — é um incômodo sincero. Talvez estejamos anestesiados pelo entretenimento constante. Talvez tenhamos desaprendido a reconhecer o sagrado que existe na ciência, no estudo silencioso, nas horas intermináveis de laboratório.

 

Hoje eu quis fazer diferente. Quis parar, refletir e dar ênfase a quem merece. Valorizar a ciência é valorizar o futuro. É escolher o que é sólido em vez do que é raso. Que a história de Tatiana nos sacuda por dentro e nos lembre que os verdadeiros heróis não usam filtros nem capas — usam jalecos, persistência e fé no conhecimento. E talvez o primeiro passo seja simples: prestar atenção no que realmente importa.

 

J.K – 20.02.26






 

Da janela indiscreta

     Da janela do quarto andar da rua Os 18 do Forte, observo a noite como quem assiste a um filme sem som. Pessoas atravessam a calçada em passos rápidos, quase fugidios, e fico tentando adivinhar se correm por medo, por hábito ou apenas porque o mundo anda exigindo pressa demais. Às vezes imagino que fogem de mim; outras, concluo que fogem de si mesmas.


No prédio em frente, uma janela acesa chama minha atenção. A vizinha fala ao celular com pouca roupa e muita naturalidade, como se estivesse sozinha no mundo. É bonita, tem um corpo que chama o olhar, mas o que realmente prende é o sorriso largo do começo da conversa. Há alegria ali, uma leveza que quase atravessa o vidro.


De repente, algo muda. O sorriso se recolhe, o corpo endurece, os gestos ficam mais secos. Ela parece discutir, e eu, no escuro do meu quarto, invento histórias para preencher os silêncios que não escuto. Imagino quem está do outro lado da linha, o que foi dito, o que doeu. Por alguns minutos, esqueço de mim e entro, sem convite, na vida dela.


Percebo então o quanto minha janela é indiscreta. Não só por aquela mulher, mas porque, dali, enxergo dezenas de outras janelas acesas ou apagadas, cheias de vidas acontecendo sem legenda. Cada uma parece pedir um enredo: aqui uma comédia apressada, ali um drama antigo, mais adiante um suspense que se arrasta há anos.


Em segundos, minha cabeça vira um roteirista inquieto. Invento finais felizes improváveis, discussões mal resolvidas, segredos guardados atrás de cortinas. E confesso: às vezes sinto vontade de acrescentar um pouco de terror, não aquele que grita, mas o silencioso — o medo de não ser visto, de não ser ouvido, de atravessar a noite apressado sem saber exatamente do quê se foge.


No fim, desligo a luz e fecho a cortina. Talvez o verdadeiro susto seja perceber que, enquanto observo os outros, alguém pode estar inventando histórias sobre mim. E que toda janela, aberta ou fechada, revela menos do que promete.

 

J.K – 19.01.26




Para quem gosta de gente que sente

        Não me explico fácil! E desconfio de quem se explica demais. Sou feito de pensamento longo, emoção funda e uma certa inquietação que não me deixa passar pela vida em modo raso. Escrevo porque é ali que me revelo — sem pose, sem personagem, sem pressa.


Tenho idade suficiente para não fingir e curiosidade demais para me acomodar. A maturidade não me tirou o desejo, só afinou o olhar. Gosto de conversas que atravessam, de gente que sustenta silêncio e de encontros que não precisam impressionar para acontecer.


Não procuro perfeição, procuro verdade. Me atraem pessoas que pensam, sentem e não têm medo de dizer “isso sou eu”. Textos, olhares e gestos sinceros sempre me ganham mais do que qualquer promessa bem ensaiada.


Assino J.K porque algumas pausas são escolhas. E talvez me conhecer seja aceitar esse convite implícito: o de descobrir alguém que não grita para ser visto, mas que, quando se mostra, não passa despercebido.

 

J.K – 19.01.26








Gal não partiu, virou trilha sonora eterna

   Faz três anos que Gal Costa nos deixou — pelo menos no plano físico. Porque, na prática, Gal nunca foi embora. Ela continua surgindo quando a saudade aperta, quando o amor transborda, quando a liberdade pede voz. Gal é dessas presenças que não se contam em datas, mas em arrepios. Eu penso nela e automaticamente penso em cor, em vento no rosto, em desejo de viver sem pedir licença.


Gal cantava como quem se despe da alma. Em Baby, ela ensinou delicadeza sem fragilidade. Em Divino maravilhoso, nos lembrou que é preciso estar atento e forte — não como ameaça, mas como postura diante do mundo. Gal nunca implorou espaço: ela ocupou. Com doçura, coragem e uma sensualidade que vinha mais da verdade do que do corpo.


Quando ouço Chuva de prata, parece que algo se ajeita por dentro. É como se Gal dissesse que, mesmo depois da tempestade, ainda há beleza caindo do céu. Já em Vaca profana, ela virou afronta elegante, provocação inteligente, mostrando que ousadia também pode ser arte fina. Gal tinha esse dom raro: cantar o que muita gente sentia, mas não sabia dizer.


O mais bonito é que Gal atravessou gerações sem envelhecer. Cada fase dela parecia uma mulher diferente — e todas verdadeiras. Tropicalista, romântica, roqueira, íntima. Em Meu bem, meu mal, ela era entrega total; em Força estranha, era mistério e transcendência. Gal cantava e a gente se reconhecia, mesmo sem saber exatamente onde doía.


Três anos depois, o silêncio que ficou não é vazio. É cheio de ecos. De vozes nossas cantando junto, de memórias embaladas por aquela voz cristalina que sabia ser doce e feroz ao mesmo tempo. Gal nos ensinou que sentir muito não é exagero — é coragem.


Se você ainda não ouviu Gal hoje, ouça. Se já ouviu, ouça de novo. Porque Gal Costa não é passado: é presente contínuo. Daqueles que aquecem, provocam e libertam. E enquanto houver alguém disposto a sentir, Gal seguirá cantando — linda, necessária e absolutamente eterna. 🎶✨


J.K – 18.01.26