segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Os hábitos que ficaram

    Eu realmente acreditei que o tempo daria conta de tudo. Que os gestos repetidos, os rituais silenciosos e aquilo que era rotina acabariam se dissolvendo na memória. Convenci a mim mesmo de que o passado não deixava marcas tão profundas, de que viver junto não cria raízes. Disse, em pensamento, que certas experiências passam sem deixar vestígios — mas era apenas uma forma educada de me enganar.

 

Nunca imaginei que sentiria falta de coisas tão pequenas. Frases ditas sem importância antes de dormir, o despertar preguiçoso dividido, um cumprimento ainda deitado. Conversas soltas, um beijo apressado, o café servido sem cerimônia. Detalhes banais que, juntos, formavam um mundo inteiro. O silêncio confortável, o jornal aberto, o tempo compartilhado sem pressa.

 

Os hábitos têm memória própria. Eles insistem em contar histórias antigas, em lembrar risos, encontros com amigos, noites que terminavam quando o dia já começava. A luz apagada, o corpo próximo, a sensação de abrigo. São lembranças que não desaparecem de imediato; precisam de muito tempo para perder o peso — e algumas nunca perdem.

 

Hoje, me encontro só, respirando uma liberdade que, curiosamente, às vezes assusta. Aceitar a vida sem você exige mais coragem do que eu imaginava. Porque como esquecer os costumes que construímos juntos, se nem você, que lhes deu sentido, eu consegui deixar para trás?

 

J.K – 21.12.25








 

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