sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Quando a rua grita e o poder finge não ouvir

    Tem dias em que dirigir pela cidade cansa mais a alma do que o corpo. Não é o trânsito, não é o sinal fechado. É o que acontece entre um vermelho e outro. Em Caxias do Sul, por exemplo, é pedinte demais para pouca sinaleira. São sempre os mesmos rostos, os mesmos olhares, as mesmas histórias repetidas dia após dia. A gente passa ali todos os dias, e nada muda. Nem para eles. Nem para nós.

 

O que mais incomoda não é o pedido — é o abandono. Porque quando tu não ajuda, alguns te olham atravessado, resmungam, como se a culpa fosse tua. Mas como ajudar todos? Se tu decide ajudar cada um, precisa de um rio de dinheiro. E já não é mais uma moeda, um trocado simbólico. Muitos pedem valores altos, como se o motorista também não estivesse tentando sobreviver do lado de cá do vidro fechado.

 

E aí vem a parte mais dura: onde estão nossos governantes? Onde estão as políticas públicas que prometem dignidade, acolhimento, saída real da rua? Porque o que vemos não é inclusão, é empurrar o problema para o colo da população. O Estado lava as mãos, e a rua vira palco de um constrangimento diário, injusto para quem pede e cruel para quem é obrigado a escolher quem merece ajuda naquele dia.

 

Não sou contra a abordagem nos sinais. Pelo contrário. Quando vejo quem trabalha ali, quem faz arte, malabarismo, música, poesia no meio do caos, meu coração agradece. Aquilo é trabalho, é tentativa, é dignidade em movimento. Talvez a gente não consiga ajudar todos, mas esses ao menos merecem nosso aplauso, nosso respeito e o reconhecimento de que estão tentando.

 

Quero — preciso — acreditar que políticas sérias ainda vão surgir. Que alguém, em algum gabinete, vai olhar para essas pessoas como cidadãos e não como incômodo urbano. Porque enquanto nada é feito, seguimos todos presos no mesmo sinal vermelho: eles pedindo porque precisam, nós desviando o olhar porque não damos conta. E no meio disso tudo, a sensação amarga de que falhamos juntos — mas não igualmente responsáveis.


 

J.K – 19.01.26




 

Nenhum comentário:

Postar um comentário