Tem dias em que dirigir pela cidade cansa mais a alma do que o corpo. Não é o trânsito, não é o sinal fechado. É o que acontece entre um vermelho e outro. Em Caxias do Sul, por exemplo, é pedinte demais para pouca sinaleira. São sempre os mesmos rostos, os mesmos olhares, as mesmas histórias repetidas dia após dia. A gente passa ali todos os dias, e nada muda. Nem para eles. Nem para nós.
O que mais incomoda não é o pedido — é o abandono.
Porque quando tu não ajuda, alguns te olham atravessado, resmungam, como se a
culpa fosse tua. Mas como ajudar todos? Se tu decide ajudar cada um, precisa de
um rio de dinheiro. E já não é mais uma moeda, um trocado simbólico. Muitos
pedem valores altos, como se o motorista também não estivesse tentando
sobreviver do lado de cá do vidro fechado.
E aí vem a parte mais dura: onde estão nossos
governantes? Onde estão as políticas públicas que prometem dignidade,
acolhimento, saída real da rua? Porque o que vemos não é inclusão, é empurrar o
problema para o colo da população. O Estado lava as mãos, e a rua vira palco de
um constrangimento diário, injusto para quem pede e cruel para quem é obrigado
a escolher quem merece ajuda naquele dia.
Não sou contra a abordagem nos sinais. Pelo
contrário. Quando vejo quem trabalha ali, quem faz arte, malabarismo, música,
poesia no meio do caos, meu coração agradece. Aquilo é trabalho, é tentativa, é
dignidade em movimento. Talvez a gente não consiga ajudar todos, mas esses ao
menos merecem nosso aplauso, nosso respeito e o reconhecimento de que estão
tentando.
Quero — preciso — acreditar que políticas sérias
ainda vão surgir. Que alguém, em algum gabinete, vai olhar para essas pessoas
como cidadãos e não como incômodo urbano. Porque enquanto nada é feito,
seguimos todos presos no mesmo sinal vermelho: eles pedindo porque precisam,
nós desviando o olhar porque não damos conta. E no meio disso tudo, a sensação
amarga de que falhamos juntos — mas não igualmente responsáveis.
J.K –
19.01.26

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