Brasília sempre me recebeu como quem reconhece um velho conhecido. Talvez seja a idade quase igual — eu, apenas cinco anos mais novo — talvez seja esse jeito moderno e místico de existir no meio do nada. O fato é que eu a adoro. Moraria aqui com prazer, sem pestanejar. Há cidades que nos acolhem; Brasília me convoca. Ela me chama para dentro de si com uma força silenciosa, concreta e, ao mesmo tempo, espiritual.
Faço minhas preces na Catedral Metropolitana como quem conversa em voz baixa com o tempo. Caminho pelo memorial do meu xará, JK, sentindo que ali pulsa um sonho que deu certo. E quando o sol se despede no Lago Paranoá, tudo desacelera: o céu vira espetáculo, a água vira espelho, e eu fico inteiro, presente, grato.
Mas é à noite que Brasília me pega de vez. A cidade muda de tom, ganha brilho, ousadia e vertigem. Bastam poucos dias para eu chegar ao limite — não de cansaço ruim, mas daquele esgotamento feliz de quem viveu demais em pouco tempo. São noites intensas, quase surreais, que exigem corpo, cabeça e coração atentos. Fico acabado, sim. Mas feliz, profundamente feliz.
Adoro me perder — e não me reencontrar jamais — na UK Music Hall ou no Roses Lounge. Observar o desfile humano no Complexo Fora do Eixo ou na Externa é um espetáculo à parte: estilos, vozes, histórias cruzando na mesma pista. Os preços são salgados, é verdade, mas cada momento vale o investimento. E quando a madrugada pede entrega total, o Club 904 me lembra que dançar também é uma forma de oração. Brasília não é só uma cidade. É um estado de espírito que eu abraço sem resistência.
30.12.25 – J.K

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