domingo, 11 de janeiro de 2026

Quando eu errei o velório (e rezei pelo morto errado)

    A vida é pródiga em situações engraçadas, tropeços memoráveis e histórias que a gente só acredita porque viveu. Essa, sem dúvida, foi uma das que mais me marcou — talvez porque misture luto, amizade, anos 80, álcool em excesso e uma absoluta falta de noção.

 

A mãe de uma amiga havia morrido. Ficamos sabendo da notícia ao sair do Incitatus, uma boate de Caxias do Sul, por volta das seis da manhã, nos saudosos anos 80. Como bons amigos e péssimos juízes de realidade, eu, Andréa e Christiane decidimos ir direto da boate para o velório. Detalhe importante: já estávamos completamente pra lá de badgá. Tínhamos tomado todas. E, como se não bastasse, contado com aquele velho “moderador de apetite” para dar energia extra.

 

Seguimos firmes rumo às capelas mortuárias do Pompéia. Ao chegar, Andréa e Chris entraram. Eu fiquei do lado de fora fumando um cigarro e refletindo sobre a vida — ou tentando. Depois, fui comprar umas balinhas para “purificar o hálito”, porque nada diz respeito ao luto como um hálito mentolado às sete da manhã.

 

Entrei decidido. Fui direto ao espaço reservado aos familiares. Dei os pêsames com convicção, tomei café, conversei sobre a causa da morte, sobre a família e, inexplicavelmente, sobre agricultura. Detalhe: eu não entendo absolutamente nada de agricultura. Estranhei não encontrar a Lissandra, mas as gurias haviam avisado que ela tinha ido para casa tomar banho, trocar de roupa e comer algo. Segui.

 

Enquanto esperava, resolvi sentar com os familiares ao redor do caixão. Rezei o terço com um grupo de senhoras muito compenetradas. Passou mais de uma hora. Nada da Lissandra. Nada da Andréa. Nada da Nani. Comecei a achar estranho. Onde estavam todos?

 

Foi então que uma senhora resolveu ajeitar as flores aos pés da falecida. Me aproximei para ajudar — solidário, respeitoso e completamente errado. Ao olhar melhor para o corpo, tive uma revelação divina: o morto era um homem. Um homem! Não era a mãe de ninguém que eu conhecia. Nesse exato momento, entendi tudo: eu havia entrado na capela errada.

 

Explico: eram três capelas, lado a lado. Eu escolhera a errada. Resultado? Um ataque de riso nervoso, incontrolável, daqueles que começam no estômago e sobem feito tsunami. Saí da sala às pressas para não cometer um crime social irreversível.

 

Recuperado — ou quase — entrei na segunda capela. Nada das gurias. Foi então que caiu a ficha final: o velório certo era na capela três. Entrei. Lá estava Lissandra, viva, inteira, sofrida como se deve estar num velório verdadeiro. As gurias, por sua vez, estavam preocupadas comigo. Eu havia sumido por mais de duas horas.

 

Fomos para fora. Contei tudo. Sentamos os quatro no meio-fio e caímos na gargalhada. Gargalhada daquelas que doem a barriga, molham os olhos e suspendem a realidade por alguns minutos. Por um instante, a tristeza deu lugar à alegria — não por desrespeito, mas por humanidade.

 

Até hoje conto essa história. E até hoje rio. O que o álcool e outras substâncias fazem com a gente. Mas aprendi uma lição valiosa: sair de uma festa direto para um velório nunca é uma boa ideia. Ainda mais depois de ter bebido todas.

 

J.K – 17.12.25




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