sábado, 31 de janeiro de 2026

Estrada campeira

 Me vou deste rincão com o peito meio atravessado, sem afeto no embornal. Deixo o Rio Grande pra trás devagarito, como quem respeita a terra antes de seguir viagem. Vou só, que certas dores a gente não reparte nem em roda de mate.


Carrego lembrança de um querer que nasceu quieto, no tropeço dos olhos, sem promessa grande. Foi amor ligeiro, feito flor nativa: abriu bonito, faceiro, mas não aguentou o tempo brabo e se perdeu cedo no campo da vida.


Mas este chão não se perde de mim, não. Sei que um dia volto, pra rever o Guaíba correndo largo, pra sentir o vento minuano no rosto e pisar de novo nesse chão que a gente chama de seu, mesmo quando anda longe.


E se ela ainda quiser dividir a sombra e o mate, que seja simples: só nós dois, proseando baixo, rindo sem pressa. Agora sigo estrada afora — e que ninguém se engane: até gaúcho firme embarga a voz quando precisa se apartar.

 

J.K – 02.01.26




Nenhum comentário:

Postar um comentário