Ela saiu de casa como quem fecha uma porta por fora, mas deixa tudo aberto por dentro. Depois da discussão, daquelas feias, cheias de palavras atravessadas, juntou o que conseguiu pegar e foi embora sem olhar para trás. Só que, na pressa ou na raiva, esqueceu pedaços dela espalhados pelo meu mundo. E desde então, não há um canto da casa que não sussurre o nome dela.
Ficou uma calça
jogada sobre a cadeira e uma camiseta esquecida no fundo do armário. Coisas
simples, banais até. Mas toda vez que passo por elas, é como se eu pudesse vê-la
caminhando pelo corredor, cabelo solto, riso fácil, ocupando o espaço que agora
é só silêncio. Impressiona como o corpo da gente se acostuma com outra
presença e depois estranha o vazio.
No varal, ainda
estava aquele vestido claro que a chuva colou na pele dela numa noite de ciúme
e reconciliação. Lembro da expressão nos olhos, metade bravura, metade medo de
me perder. Ela sempre foi intensa, exagerada nos sentimentos, desmedida nas
reações. E talvez eu também tenha sido! Talvez dois temporais não consigam
dividir o mesmo céu por muito tempo.
Mas o que realmente
me desmonta é uma pequena peça esquecida no fundo da gaveta. Delicada, quase
indecente na capacidade de despertar memória. Ainda guarda o perfume que ela
usava, aquele cheiro que misturava flor com pecado e que me fazia perder
qualquer argumento. Às vezes seguro aquela renda negra como quem tenta segurar
o que já partiu. E percebo que não foi só roupa que ficou! Ela levou consigo a
parte mais vulnerável de mim. Meu coração, esse tolo, insiste em ir atrás, mesmo sabendo que certas loucuras não têm volta.
J.K – 13.02.26

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