quarta-feira, 18 de março de 2026

O que ficou depois da tempestade

        Ela saiu de casa como quem fecha uma porta por fora, mas deixa tudo aberto por dentro. Depois da discussão, daquelas feias, cheias de palavras atravessadas, juntou o que conseguiu pegar e foi embora sem olhar para trás. Só que, na pressa ou na raiva, esqueceu pedaços dela espalhados pelo meu mundo. E desde então, não há um canto da casa que não sussurre o nome dela.

 

 Ficou uma calça jogada sobre a cadeira e uma camiseta esquecida no fundo do armário. Coisas simples, banais até. Mas toda vez que passo por elas, é como se eu pudesse vê-la caminhando pelo corredor, cabelo solto, riso fácil, ocupando o espaço que agora é só silêncio. Impressiona como o corpo da gente se acostuma com outra presença e depois estranha o vazio.

 

 No varal, ainda estava aquele vestido claro que a chuva colou na pele dela numa noite de ciúme e reconciliação. Lembro da expressão nos olhos, metade bravura, metade medo de me perder. Ela sempre foi intensa, exagerada nos sentimentos, desmedida nas reações. E talvez eu também tenha sido! Talvez dois temporais não consigam dividir o mesmo céu por muito tempo.

 

 Mas o que realmente me desmonta é uma pequena peça esquecida no fundo da gaveta. Delicada, quase indecente na capacidade de despertar memória. Ainda guarda o perfume que ela usava, aquele cheiro que misturava flor com pecado e que me fazia perder qualquer argumento. Às vezes seguro aquela renda negra como quem tenta segurar o que já partiu. E percebo que não foi só roupa que ficou! Ela levou consigo a parte mais vulnerável de mim. Meu coração, esse tolo, insiste em ir atrás, mesmo sabendo que certas loucuras não têm volta.

 


J.K – 13.02.26



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