Escuto Cocteau Twins e deixo que a música dissolva o mundo ao meu redor. As vozes etéreas se espalham pelo ar como um convite silencioso, abrindo uma porta que só nós dois conhecemos. É nesse intervalo entre nota e respiração que você aparece, primeiro como lembrança, depois como presença — suave, inevitável.
No meio da melodia, imagino seus passos lentos se
aproximando, como se o chão reconhecesse o peso exato da tua vontade. Nada
urgente, nada apressado. Apenas a certeza tranquila de quem sabe que o encontro
não precisa de explicação. O ar muda, a pele desperta, e o pensamento de você
percorre meu corpo como um arrepio que conhece o caminho.
De olhos fechados, tudo ganha textura. O toque que
não existe se torna quase real, desenhando na minha pele a ausência mais íntima
que já senti. E é curioso como a imaginação, quando te escolhe, não mente: ela
traduz o desejo em gesto, o silêncio em entendimento, o instante em entrega
lenta.
Quando a música termina, não há turbulência, apenas
uma paz quente, daquelas que ficam mesmo depois que a fantasia se dissolve.
Você não está aqui, mas, por alguns minutos, esteve tão perto que quase pude te
tocar. E talvez seja isso que me encanta: a forma como você preenche até o que
ainda não aconteceu.
30.11.25 – J.K

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