Minha mãe, Helena Horácia, chegou trazendo seus 84 anos bem vividos e uma energia que não cabe em porta nenhuma. Nada nela é silencioso: ela é elétrica, dinâmica, falante, dessas presenças que ocupam a casa inteira com riso, opinião, histórias repetidas e gestos rápidos. Durante uma semana, Caxias do Sul pulsou no ritmo dela — café feito comentando a vida, almoço acompanhado de lembranças, noites cheias de conversa.
Ela limpou, cozinhou e arrumou tudo como quem dança
entre tarefas. O apartamento foi se transformando no jeitinho que ela gosta:
cada coisa no seu lugar certo, cada canto com função e afeto. Não era apenas
organização — era uma maneira muito própria de dizer “eu cuido”, deixando
marcas invisíveis que só quem ama percebe.
Veio feliz para sua casinha temporária aqui e
tratou o espaço como definitivo. Passou pano, ajeitou detalhes, decidiu
posições, como se estivesse deixando tudo pronto para seguir funcionando sem
ela. Mas, antes de partir, chorou. Um choro estranho, profundo, como quem se
despede não só de um lugar, mas de um tempo.
Ela voltou para São Marcos feliz, inteira,
sorridente. Ainda assim, tive a sensação de que algo ficou suspenso no ar, como
se uma parte dela tivesse decidido permanecer. Talvez na cozinha impecável,
talvez no eco da sua voz pela casa. Eu fiquei com o apartamento em ordem e com
o coração apertado, entendendo que alguns cuidados também são formas delicadas
de despedida.
27.12.25 – J.K

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