Tudo era perfeito e harmônico no condomínio até a
chegada da nova vizinha, Lara. No primeiro dia, ela bateu na minha porta para
pedir ovos — queria fazer um bolo. Me apresentei, convidei-a para entrar e
entreguei o que precisava.
Horas depois, ela voltou trazendo um pedaço do tal
bolo, ainda quente e perfumado. Convidei-a novamente para entrar e ofereci um
café, que ela aceitou com um sorriso fácil demais.
Enquanto a água fervia, conversamos. Lara tinha uma
fala suave, olhar firme e beleza difícil de ignorar. Os cabelos ruivos
brilhavam quando a luz do fim da tarde batia neles. E havia algo quase
hipnótico na forma como cruzava e descruzava as pernas ao repousar a xícara na
mesa, revelando o decote discreto — mas impecável.
Em poucos minutos, eu já sabia que ela era viúva. O
marido, segundo ela, havia morrido há pouco mais de um ano.
— Do quê? — perguntei, naturalmente.
Ela me encarou, inclinou a cabeça e sorriu.
— Eu matei ele. Não gostava mais dele.
Ri, achando que fosse humor negro. Mas ela repetiu
a frase, com a mesma calma, como se me testasse. Não insisti. Não naquele
momento.
**
Nos dias seguintes, Lara parecia sempre cruzar meu
caminho. No elevador, na garagem, na portaria. Sempre com um sorriso calculado.
Sempre com perguntas demais. Sempre insinuando que “vizinhos educados são
raros… e preciosos”.
Meu sono começou a falhar.
**
Certa noite, tarde demais para visitas normais,
alguém bateu à porta. Era Lara.
— Preciso de ajuda — disse, aflita. — Há um barulho
estranho no meu quarto. Acho que tem um animal preso na tubulação.
Relutante, fui. A porta do apartamento dela estava
entreaberta. O corredor escuro, silencioso. O ar tinha um cheiro metálico,
quase doce.
— É ali dentro — ela apontou.
Ao me aproximar do quarto, percebi que não havia
barulho nenhum. Apenas silêncio. Um silêncio pesado. Quando virei para
comentar, ela não estava mais atrás de mim.
A porta de entrada se fechou sozinha com um clique.
— Lara? — chamei.
Nenhuma resposta.
Empurrei a porta do quarto e acendi a luz.
Quase nada ali dentro. Só uma caixa de papelão no
chão. Em cima dela, uma foto.
Minha foto.
Eu dormindo no sofá da sala. Tirada claramente da
janela dela. A data marcava dois dias antes.
Senti a espinha gelar.
— Você ficou tão vulnerável — disse a voz dela
atrás de mim, suave demais. — Igual meu marido. Ele também confiava demais.
Virei-me devagar. Lara estava parada na porta,
braços cruzados, sorriso tranquilo. Um sorriso que não combinava com a
situação.
— Isso não tem graça — falei.
— Não era pra ter — ela respondeu. — Você é
diferente. Por isso eu gosto de você. Mas se eu te deixar ir… você fala demais.
Dei um passo em direção à sala, calculando cada
movimento. Ela observava como um predador paciente.
Foi então que o interfone tocou alto, quebrando o
clima como um tiro. Ela se virou, irritada. Aproveitei o segundo que me deu e
corri para fora.
O porteiro, que subia para verificar barulhos,
entrou justamente na hora e me viu passar em disparada.
No elevador, minhas mãos tremiam. A porta se fechou
antes que ela pudesse me alcançar.
**
Na manhã seguinte, Lara havia desaparecido.
O apartamento, lacrado. Disseram que ela saiu às
pressas, antes mesmo da polícia pedir explicações.
Pensei que fosse o fim da história.
Mas à noite, ao chegar em casa, encontrei algo no
tapete da porta: uma xícara de café ainda quente e um bilhete escrito com
caligrafia elegante.
“Você realmente é diferente. Até logo.”
Fiquei parado ali por longos segundos, encarando
minha própria porta trancada. Trancada… e ainda assim longe de parecer segura.
E naquele instante, percebi uma coisa terrível:
Lara não tinha ido embora.
Só estava me dando tempo.
JK – 29.11.25