terça-feira, 30 de dezembro de 2025

A clareza de um sagitariano

   Hoje, aos 60 anos, aprendi a não ceder ao benefício da dúvida. Sei exatamente o que quero e o que não quero! Sou a mais perfeita tradução de um sagitariano de dezembro: intenso, verdadeiro e direto, sem meias-palavras.

 

Sei que ora sou extrovertido, ora introspectivo; às vezes durão, outras só coração. Cada pessoa que cruza meu caminho recebe de mim exatamente aquilo que merece ou deseja. Tento não julgar ninguém, assim como espero não ser julgado — é a regra de ouro que sigo na vida.

 

Portanto, não espere receber de mim algo que você não compartilhou. Como diz o velho ditado, “é dando que se recebe”. Simples, direto e sincero, sem complicações desnecessárias.

 

Todos nós temos defeitos e qualidades, é claro. Mas de uma coisa não tenho dúvida: sei valorizar quem merece. Quem convive comigo e conquista meu carinho recebe atenção, respeito e lealdade — porque o que é verdadeiro, eu sempre reconheço.


J.K – 29.12.25




Brindando o novo ano

    Nem bem curei a ressaca de Natal e já sinto a presença de 2026 batendo na porta! Com um sorriso estampado, abro e a convido a entrar, sentar e brindar comigo. Entre risadas e doses a mais, aguardamos a virada, celebrando a vida e tudo o que ainda está por vir.

 

Na playlist, toca nossa canção, e sorrio sozinho. Lembro do teu sorriso, mais bonito quando reflete o meu, e revivo cada encontro perfeito que tivemos. Penso nas histórias de amor que escrevemos juntos e naquelas que ainda vamos construir no novo ano.

 

Do ano que se encerra, levo apenas a essência: aprendizados, momentos de alegria e os abraços trocados com as pessoas que amo e quero ao meu lado. O restante? Deleto, sem arrependimentos, sem peso na memória.

 

Chego em 2026 mais leve, com alguns quilos a menos e meu melhor sorriso. Sinto no peito a certeza de que tudo vai se ajeitar, que os sonhos que guardamos ainda vão se tornar realidade, cada um do seu jeito, no tempo certo.

 

E assim, de coração aberto e copo na mão, nos vemos em 2026! Prontos para viver, rir e amar ainda mais, sem medo do que virá, mas com esperança no que podemos criar juntos.

 

J.K – 29.12.25




2026 à frente, eu aqui

    Planejar o futuro nunca foi simples, mas encarar 2026 me dá a sensação de estar prestes a saltar de paraquedas sem saber exatamente onde vou pousar. Viro o ano com essa inquietação no peito, tentando organizar ideias enquanto o mundo parece decidido a acelerar. Há algo de fascinante e assustador nessa virada: a certeza de que nada será previsível e, ainda assim, a obrigação íntima de seguir em frente, mesmo sem mapa.


No horizonte, os ingredientes estão todos ali, quase provocando: Copa do Mundo, eleições presidenciais, uma polarização que cansa antes mesmo de começar, guerras que insistem em se prolongar e tecnologias que transformam hábitos, relações e negócios em velocidade vertiginosa. Olho para tudo isso e me pergunto como não ser engolido pelo barulho. Como manter clareza quando o cenário parece um grande teste de resistência emocional e estratégica?


Tenho aprendido, às vezes à força, que fingir normalidade é um risco enorme. 2026 não será um ano comum, e negar isso é fechar os olhos para ondas altas. Ao mesmo tempo, percebo que o medo também paralisa. Ficar imóvel esperando que a poeira baixe pode ser tão perigoso quanto correr sem direção. Entre a negação e o pânico, existe um espaço difícil, mas necessário: o da consciência e da adaptação.


É nesse lugar desconfortável que escolho estar ao virar o ano. Não com respostas prontas, mas com disposição para ajustar rotas, rever planos e aceitar que a incerteza será parte do caminho. Talvez preparar um negócio, ou a própria vida, para 2026 seja menos sobre controlar o futuro e mais sobre desenvolver elasticidade, coragem e lucidez. Entro nesse novo ano assim: atento, vulnerável e, apesar de tudo, decidido a seguir navegando.

 

J.K – 26.12.25






segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

A semana em que a casa virou abraço

    Minha mãe, Helena Horácia, chegou trazendo seus 84 anos bem vividos e uma energia que não cabe em porta nenhuma. Nada nela é silencioso: ela é elétrica, dinâmica, falante, dessas presenças que ocupam a casa inteira com riso, opinião, histórias repetidas e gestos rápidos. Durante uma semana, Caxias do Sul pulsou no ritmo dela — café feito comentando a vida, almoço acompanhado de lembranças, noites cheias de conversa.


Ela limpou, cozinhou e arrumou tudo como quem dança entre tarefas. O apartamento foi se transformando no jeitinho que ela gosta: cada coisa no seu lugar certo, cada canto com função e afeto. Não era apenas organização — era uma maneira muito própria de dizer “eu cuido”, deixando marcas invisíveis que só quem ama percebe.


Veio feliz para sua casinha temporária aqui e tratou o espaço como definitivo. Passou pano, ajeitou detalhes, decidiu posições, como se estivesse deixando tudo pronto para seguir funcionando sem ela. Mas, antes de partir, chorou. Um choro estranho, profundo, como quem se despede não só de um lugar, mas de um tempo.


Ela voltou para São Marcos feliz, inteira, sorridente. Ainda assim, tive a sensação de que algo ficou suspenso no ar, como se uma parte dela tivesse decidido permanecer. Talvez na cozinha impecável, talvez no eco da sua voz pela casa. Eu fiquei com o apartamento em ordem e com o coração apertado, entendendo que alguns cuidados também são formas delicadas de despedida.

 

27.12.25 – J.K




A menina cresceu

Lembro-me da primeira vez que te vi, você era apenas uma criança. Mas agora, ao te ver novamente, sinto-me surpreso com a mulher que você se tornou. É como se o tempo tivesse passado rápido demais, e agora estou aqui, refletindo sobre como pude me apaixonar por você.

 

Penso nos momentos em que te carreguei nos braços, cantei para você dormir e te protegi de tudo. E agora, vejo a mulher que você se tornou, com um coração cheio de segredos e sonhos. É incrível como você cresceu e se tornou essa pessoa tão especial.

 

Agora que você é adulta, vejo a complexidade e a profundidade da pessoa que você se tornou. Você tem uma personalidade única e uma forma de ver o mundo que me fascina. É como se eu estivesse descobrindo você novamente, e isso é emocionante.

 

Mas a pergunta que não quer calar é: como pude me apaixonar por você agora? Como pude não ter percebido que você era a pessoa certa para mim? Talvez seja porque o tempo nos fez ver as coisas de maneira diferente, mas uma coisa é certa: você é a menina que cresceu, e eu estou aqui, tentando entender esse sentimento.


J.K – 09.12.25




domingo, 28 de dezembro de 2025

Um pouco de mim, sem filtros

Nasci em Santa Maria, mas foi em Caxias do Sul que criei raízes há mais de 30 anos. Carrego comigo a saudade do meu pai, Dalton, e de familiares espalhados pelo mundo, mas é a minha família que ancora quem eu sou. No centro de tudo está minha mãe, Helena — minha joia mais preciosa, meu alicerce, meu amor maior. Sou grato por cada gesto, cada ensinamento, cada cuidado. Meus sobrinhos, Fernanda e Rodolfo, são puro afeto, e minha irmã Jeanine, junto do César, formam essa segunda família que a vida me deu.

 

Trabalho com comunicação há mais de três décadas e sigo apaixonado pelo que faço! Gosto de ajudar, de estar presente, de chegar no horário — pontualidade é quase um traço de caráter. Fora do trabalho, encontro refúgio nos livros, no cinema e na música. Valorizo as pequenas coisas, os detalhes, os momentos simples que fazem a vida realmente valer a pena.

 

Sou feito de contradições: reclamo bastante, não dou tanta importância ao dinheiro, mas confesso que odeio ficar sem ele! Tenho temperamento forte (palavras da minha mãe, sempre sinceras!), memória péssima para nomes e telefones, e algumas dependências assumidas: Coca-Cola e chocolate! Sagitariano convicto, amo plantas, animais e tudo o que pulsa vida.

 

No inverno, a comida sempre vence — e os quilos aparecem. No verão, tento negociar com a balança. Me inspiro nas cores intensas de Almodóvar, na força de Frida Kahlo e, como o Garfield, sou um pouco gordo, azedo e sarcástico. Mas, no fundo, sou uma eterna criança, dessas que vivem tudo com intensidade. E se eu partir hoje, não chores por mim: vivi — e vivi pra valer!

J.K – 28.12.25




Quando o rei me fez sentir de novo

Confesso: fazia tempo que um especial de fim de ano do Rei Roberto Carlos não me emocionava de verdade. Eu já assistia quase por tradição, esperando mais do mesmo, aquele roteiro previsível do começo ao fim. Talvez por isso a surpresa tenha sido ainda maior quando, sem aviso, ele me pegou desprevenido e me fez sentir. Sentir de verdade!


Começou pela escolha da locação. Gramado, sempre linda, mas absolutamente encantadora no clima natalino, deu um novo fôlego ao espetáculo. A cidade parecia abraçar o Rei e, de algum modo, abraçar também quem estava do outro lado da tela. Ali, já percebi: não seria apenas mais um especial.


O repertório veio como um presente inesperado. Canções que há tempos eu não via Roberto cantar reapareceram, lembrando o tamanho da sua obra como compositor. Os convidados também trouxeram frescor, e o momento com Supla foi, sem exagero, um daqueles instantes em que a gente sorri surpreso. Arranjos ousados, diferentes, e um Maestro Eduardo Lages inspirado, superando-se mais uma vez!


E por ser Natal, Roberto fez o que sabe fazer como poucos: transmitiu fé, esperança e emoção. As músicas que falam de nascimento, de espiritualidade e de amor tocaram fundo. Assisti ao especial duas vezes, na companhia da minha mãe, e posso dizer sem medo: nos emocionamos juntos. Foi um daqueles momentos simples que viram memória.


E, aqui entre nós, não tenha vergonha de gostar do Rei. Ele pode não ser o maior cantor tecnicamente, mas poucos sabem encantar como ele. Roberto Carlos entende de palco, de gente, de sentimento. E, naquela noite, ele me lembrou por que ainda é, e sempre será, o Rei! 👑✨

 

J.K – 28.12.25






Quando o limite é o silêncio

Eu já tentei tantas vezes ser a versão de mim que você considera “certa”. Ajustei meus gestos, meu ritmo, minhas escolhas. Mas nada nunca pareceu suficiente. Você critica tudo: o que faço, o que deixo de fazer, até o que faço do jeito que você pediu. E, para não te magoar, fui engolindo cada incômodo, cada pequena injustiça, como quem finge que nada pesa. Agora, pesa!


Não me peça beijos. Beijos não se pedem! Não me peça para apagar as mensagens que você escreve; simplesmente apague. Não espere que eu argumente ou tente explicar. Você nunca entendeu, ou talvez nunca quis entender. Suas palavras chegam como ordens, não como diálogo, e eu já sei que qualquer tentativa vira só mais um motivo para você apontar o dedo.


Não se preocupe comigo. Eu não vou mais brigar, não vou mais levantar a voz, não vou mais tentar provar nada. Toda vez que tentei, bati na mesma parede — dura, imutável, sempre pronta para me lembrar de que meu jeito é sempre o errado. E, sinceramente, eu estou cansado de ser colocado nesse lugar.


Tudo continua igual. As conversas, os gestos, o ritmo da casa. Nada vai mudar — a não ser eu. E não é uma mudança feita de explosão, nem de fuga. É um recuo silencioso. Vou parar de discutir, de argumentar, de tentar ser ouvido. Vou apenas concordar. Não por submissão, mas por exaustão. Porque às vezes o silêncio é o único lugar onde ainda sobra um pouco de paz.

 

30.11.25 – J.K








Noite de questionamentos

Quando a lua surgiu no céu, eu era a único que ainda estava acordado, sonhando com o futuro. A noite era jovem e cheia de possibilidades, mesmo que para mim já fosse tarde demais para mudar o curso das coisas. Mas a vida é assim, cheia de surpresas e reviravoltas.

 

Agora, enquanto envelheço, eu me pergunto sobre o sentido da vida. É estranho ser humano, não é? Temos tantas perguntas e tão poucas respostas. E quando chega a hora de partir, o que resta? Será que vamos encontrar o que estamos procurando?

 

Nessa jornada, aprendi a não me apegar demais às coisas. A vida é curta e imprevisível, e não há garantias de amanhã. Então, eu aproveito o momento, deixo o futuro incerto e foco no presente. É uma arte que exige prática, mas que vale a pena.

 

A verdade é que a vida é cheia de mistérios e surpresas. E a gente só precisa aprender a lidar com isso. Então, eu vou seguir em frente, com a certeza de que no fim da estrada, há uma nova avenida, uma nova chance, uma nova saída. E é isso que torna a vida tão interessante.

 

J.K – 09.12.25




 


sábado, 27 de dezembro de 2025

Cocteau Twins e o lugar onde você me encontra

Escuto Cocteau Twins e deixo que a música dissolva o mundo ao meu redor. As vozes etéreas se espalham pelo ar como um convite silencioso, abrindo uma porta que só nós dois conhecemos. É nesse intervalo entre nota e respiração que você aparece, primeiro como lembrança, depois como presença — suave, inevitável.


No meio da melodia, imagino seus passos lentos se aproximando, como se o chão reconhecesse o peso exato da tua vontade. Nada urgente, nada apressado. Apenas a certeza tranquila de quem sabe que o encontro não precisa de explicação. O ar muda, a pele desperta, e o pensamento de você percorre meu corpo como um arrepio que conhece o caminho.


De olhos fechados, tudo ganha textura. O toque que não existe se torna quase real, desenhando na minha pele a ausência mais íntima que já senti. E é curioso como a imaginação, quando te escolhe, não mente: ela traduz o desejo em gesto, o silêncio em entendimento, o instante em entrega lenta.


Quando a música termina, não há turbulência, apenas uma paz quente, daquelas que ficam mesmo depois que a fantasia se dissolve. Você não está aqui, mas, por alguns minutos, esteve tão perto que quase pude te tocar. E talvez seja isso que me encanta: a forma como você preenche até o que ainda não aconteceu.


30.11.25 – J.K




 

Havaianas e eu: uma relação de respeito à distância

 Por mais que todo brasileiro jure amor eterno, eu confesso: nunca fui fã das sandálias Havaianas. É quase uma heresia nacional, eu sei! Enquanto o país inteiro parece ter um par para cada ocasião — da praia ao supermercado, do sofá à esquina — eu sempre observei tudo de fora, como quem entende o fenômeno, mas não entra na fila.


Nunca comprei uma! Já ganhei, claro, porque ninguém leva a sério quando digo que não uso. Tentei, experimentei, caminhei alguns passos… e pronto, bastou! Não me adapto a esse tipo de sandália. Meu pé nunca se entendeu com ela, e a sensação sempre foi a de estar usando algo que claramente não foi feito para mim.


Isso não é desprezo, é convivência respeitosa. Reconheço o peso cultural da Havaianas: democrática, onipresente, quase um patrimônio informal do país. Ela está em todo lugar e em todas as histórias, menos nas minhas. Algumas relações simplesmente nascem sem química, e a gente aprende a aceitar.


E então veio o comercial com a Fernanda Torres. Respeito o comercial, respeito a atriz e respeito a polêmica — embora ela pareça grande demais para algo tão pequeno. No fim das contas, serviu para uma coisa importante: fazer o país esquecer, por alguns dias, dos problemas econômicos que atravessa. Até que o próximo escândalo apareça e a conversa mude de assunto, como sempre!

 

J.K – 27.12.25




 

....

Quando a fé nasce outra vez

  No meio das luzes, dos abraços e dos desejos que o Natal desperta, eu me lembro do que realmente sustenta tudo isso: o nascimento de Jesus Cristo. Confesso que, muitas vezes, me perco no barulho do mundo e quase esqueço que o Natal não começa no presente, mas no presépio. É ali, na simplicidade de um menino, que a fé ganha corpo e me chama de volta ao essencial.

 

Celebrar o Natal, para mim, é reconhecer que Deus escolheu nascer pequeno para ensinar grandeza. Jesus não veio cercado de poder, mas de humildade. E toda vez que lembro disso, algo dentro de mim se aquieta. A fé deixa de ser discurso e passa a ser caminho. Um convite diário para amar mais, julgar menos e estender a mão antes de apontar o dedo.

 

Nesse espírito, eu acredito que o Natal acontece de verdade quando deixamos Cristo nascer dentro de nós. Quando a fé se traduz em gestos simples: um perdão concedido, um abraço oferecido, uma escuta sincera. Não é sobre perfeição, é sobre entrega. É sobre permitir que a esperança vença o medo e que a luz encontre espaço mesmo nas nossas sombras.

 

Talvez o maior milagre do Natal seja esse: lembrar que não estamos sozinhos. Que Deus se fez homem para caminhar conosco. E que, ao celebrar o nascimento de Jesus, renovamos também a nossa fé na vida, no amor e na possibilidade de um mundo mais justo e humano. Que este Natal não seja apenas lembrado, mas vivido — com fé, com verdade e com o coração aberto.

 

J.K – 17.12.2025






Tudo era perfeito até ela chegar

 Tudo era perfeito e harmônico no condomínio até a chegada da nova vizinha, Lara. No primeiro dia, ela bateu na minha porta para pedir ovos — queria fazer um bolo. Me apresentei, convidei-a para entrar e entreguei o que precisava.

Horas depois, ela voltou trazendo um pedaço do tal bolo, ainda quente e perfumado. Convidei-a novamente para entrar e ofereci um café, que ela aceitou com um sorriso fácil demais.

Enquanto a água fervia, conversamos. Lara tinha uma fala suave, olhar firme e beleza difícil de ignorar. Os cabelos ruivos brilhavam quando a luz do fim da tarde batia neles. E havia algo quase hipnótico na forma como cruzava e descruzava as pernas ao repousar a xícara na mesa, revelando o decote discreto — mas impecável.

Em poucos minutos, eu já sabia que ela era viúva. O marido, segundo ela, havia morrido há pouco mais de um ano.

— Do quê? — perguntei, naturalmente.

Ela me encarou, inclinou a cabeça e sorriu.

— Eu matei ele. Não gostava mais dele.

Ri, achando que fosse humor negro. Mas ela repetiu a frase, com a mesma calma, como se me testasse. Não insisti. Não naquele momento.

**

Nos dias seguintes, Lara parecia sempre cruzar meu caminho. No elevador, na garagem, na portaria. Sempre com um sorriso calculado. Sempre com perguntas demais. Sempre insinuando que “vizinhos educados são raros… e preciosos”.

Meu sono começou a falhar.

**

Certa noite, tarde demais para visitas normais, alguém bateu à porta. Era Lara.

— Preciso de ajuda — disse, aflita. — Há um barulho estranho no meu quarto. Acho que tem um animal preso na tubulação.

Relutante, fui. A porta do apartamento dela estava entreaberta. O corredor escuro, silencioso. O ar tinha um cheiro metálico, quase doce.

— É ali dentro — ela apontou.

Ao me aproximar do quarto, percebi que não havia barulho nenhum. Apenas silêncio. Um silêncio pesado. Quando virei para comentar, ela não estava mais atrás de mim.

A porta de entrada se fechou sozinha com um clique.

— Lara? — chamei.

Nenhuma resposta.

Empurrei a porta do quarto e acendi a luz.

Quase nada ali dentro. Só uma caixa de papelão no chão. Em cima dela, uma foto.

Minha foto.

Eu dormindo no sofá da sala. Tirada claramente da janela dela. A data marcava dois dias antes.

Senti a espinha gelar.

— Você ficou tão vulnerável — disse a voz dela atrás de mim, suave demais. — Igual meu marido. Ele também confiava demais.

Virei-me devagar. Lara estava parada na porta, braços cruzados, sorriso tranquilo. Um sorriso que não combinava com a situação.

— Isso não tem graça — falei.

— Não era pra ter — ela respondeu. — Você é diferente. Por isso eu gosto de você. Mas se eu te deixar ir… você fala demais.

Dei um passo em direção à sala, calculando cada movimento. Ela observava como um predador paciente.

Foi então que o interfone tocou alto, quebrando o clima como um tiro. Ela se virou, irritada. Aproveitei o segundo que me deu e corri para fora.

O porteiro, que subia para verificar barulhos, entrou justamente na hora e me viu passar em disparada.

No elevador, minhas mãos tremiam. A porta se fechou antes que ela pudesse me alcançar.

**

Na manhã seguinte, Lara havia desaparecido.

O apartamento, lacrado. Disseram que ela saiu às pressas, antes mesmo da polícia pedir explicações.

Pensei que fosse o fim da história.

Mas à noite, ao chegar em casa, encontrei algo no tapete da porta: uma xícara de café ainda quente e um bilhete escrito com caligrafia elegante.

“Você realmente é diferente. Até logo.”

Fiquei parado ali por longos segundos, encarando minha própria porta trancada. Trancada… e ainda assim longe de parecer segura.

E naquele instante, percebi uma coisa terrível:

Lara não tinha ido embora.
Só estava me dando tempo.

 

JK – 29.11.25




 

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Natal de castigo

 O Natal chegou todo pomposo, com luz piscando, peru seco e promessa de milagre na ceia. Eu fiz minha parte: comi demais, critiquei a comida alheia e reclamei do calor. Resultado? Papai Noel passou lá em casa, olhou bem pra minha cara e decidiu que eu não merecia nem um par de meias furadas. Fui oficialmente rebaixado à categoria “mal menino”, sem direito a recurso.


O clima não ajudou. Aquele senhor de vermelho parecia mais cansado do que eu numa segunda-feira. Nada de barriga farta ou riso contagiante. Tinha cara de quem pegou trânsito, perdeu o trenó no estacionamento e ainda esqueceu a senha do Pix. Pediu comida, não presente. E eu, solidário e falido, só consegui oferecer o que sobrava no prato: quase nada, mas com muito amor… e zero proteína.


O mais constrangedor foi perceber que o espírito natalino estava parcelado. Tudo em suaves prestações: a ceia, os presentes, a boa vontade. Até a culpa veio dividida em doze vezes sem juros. Enquanto isso, o bom velhinho parecia desempregado, desiludido e claramente repensando a carreira. Talvez abrisse um podcast. Ou um curso online: “Como sobreviver ao Natal sem enlouquecer”.


No fim, fiquei sem presente, mas com uma lição valiosa: se comportar mal no ano rende boas histórias, mas péssimos natais. Mesmo assim, confesso… não me arrependo tanto. Porque se o Natal é tempo de reflexão, o meu serviu pra entender que às vezes a maior dádiva é rir da própria falta de juízo — ainda que isso custe um presente esquecido no saco do Noel. 🎄😄

 

26.12.25 - JK




Quando o corpo decide amar antes da alma

 Mochila nas costas, partiu rumo a São Paulo como sempre fazia nos finais de semana. Namorar era preciso — e o corpo sabia antes mesmo da mente.

 

Ao desembarcar no aeroporto Guarulhos, lá estava ela: linda, leve, irresistível. Pernas à mostra, camisa que abraçava cada curva, perfume que desmontava qualquer defesa. Um selinho rápido no carro — rápido demais para matar saudade — e logo uma parada para o jantar.

 

O que deveria ser apenas uma refeição virava ritual: olhares que se demoravam, risos íntimos, a conversa que corria solta, aquele magnetismo que puxava um ao outro como se o mundo inteiro conspirasse.
Ao chegarem em casa, o abraço era tímido… até não ser mais. Os beijos vinham carregados de saudade, de promessa, de lembrança. Ela dizia não ser romântica — mas bastava um toque para desmenti-la.

 

Aos poucos, as roupas desistiam de ficar. Beijos aconteciam onde a pele pedia, no ritmo que a respiração comandava. Olhos se encontravam num silêncio quente, pesado, elétrico. Corpos se aproximavam numa dança lenta que só dois amantes que se conhecem bem conseguem executar. O arrepio vinha fácil. O querer, mais ainda.

 

As mãos dele — aquelas mãos meio desajeitadas e tão dela — deslizavam pelo corpo como quem percorre um território sagrado. Os beijos se faziam mais úmidos, mais profundos, mais urgentes.
Ela entendia cada gesto, ele entendia cada suspiro.

 

Quando os dois se perdiam um no outro, o sofá virava continente, testemunha, palco. Gemidos, risos abafados, pequenas juras meio sussurradas, meio mordidas. Era um vai e vem de desejo, um jogo de entrega gradual, que começava suave e ganhava força como se o corpo tivesse vontade própria.

 

Ele a segurava, guiava, explorava seus mistérios com a devoção de quem sabe que o prazer dela é porta de entrada para o dele. Nada o encantava mais do que vê-la perder-se em ondas longas, profundas, repetidas — como se o clímax fosse um lugar ao qual ela sempre retornava conduzida por ele.

 

Quando o corpo pediu pausa, vieram o vinho, a música, o silêncio confortável. E, ao menor toque, tudo recomeçou.

 

Ela cavalgava devagar no início, mas logo se soltava, revelando a força e a liberdade que guardava no corpo. Era amazona, era tempestade, era mulher inteira — e ele a admirava como quem assiste a um espetáculo só para iniciados.

 

Palavras quentes escapavam dela sem filtro, queimando o ar entre os dois. O desejo escorria, brilhava na pele, misturava-se aos suspiros que explodiam em sua boca, no pescoço, no peito dele.
Ele a segurava firme, guiando o ritmo, guardando cada segundo como um segredo precioso.

 

Quando o corpo dela finalmente desabou no dele, trêmulo e entregue, ele percorreu sua pele com a boca e com as mãos, saboreando o que ela oferecia — cada tremor, cada rastro, cada suspiro que ainda escapava.

 

E ela, renascida após cada onda, o recebia de volta com beijos lentos, famintos, como quem saboreia um doce proibido. O resto da noite foi repetição e reinvenção: toques que voltavam diferentes, beijos que vinham mais quentes, sussurros que ficavam cada vez mais íntimos.

 

E, ao amanhecer, exaustos e felizes, dormiram de conchinha — como dois que sabem que pertencer ao outro é, no fundo, o maior descanso do mundo.


29.11.25 — JK