Ele
dormia pouco, com o corpo sempre em alerta. A sensação era a mesma de quem
espera que algo toque seu ombro a qualquer instante.
Mas ele
precisava de respostas.
Sabia que não descansaria enquanto não entendesse o que realmente acontecera
naquela noite no bar.
Decidiu
voltar ao local.
Quando
chegou, percebeu algo que antes não havia notado: a porta, apesar de idêntica,
parecia mais velha. O letreiro estava apagado, as janelas cobertas de poeira.
Ele entrou mesmo assim — e encontrou o interior abandonado, com mesas
encostadas na parede e cheiro de mofo no ar.
O bar
estava fechado havia pelo menos cinco anos.
— Mas eu
estive aqui semana passada… — murmurou, sentindo o estômago revirar.
No
balcão, encontrou um porta-guardanapos metálico. Dentro, apenas um único
guardanapo intacto.
João puxou.
Era o
mesmo guardanapo onde Joanna escrevera seu nome e endereço.
A mesma
caligrafia.
O mesmo
papel.
Mas… o
dele continuava guardado na carteira.
Ele tirou
a carteira, abriu — e viu que o guardanapo não estava mais lá.
A
respiração ficou curta.
O coração, acelerado.
O bar
estava escuro, exceto por uma luz fraca que vinha do espelho ao fundo. João
tentou não olhar, mas era como se seus olhos fossem puxados para ali.
E então
ele viu.
Não
apenas a silhueta.
Viu o rosto dela.
Pálido.
Os olhos profundamente afundados, como se carregassem séculos de ausência.
Os lábios moviam-se, formando palavras silenciosas.
João
virou o rosto, fechou os olhos e correu para fora. Só parou quando chegou ao
fim da rua.
Respirou
fundo.
— Isso
não pode estar acontecendo…
Mas
precisava continuar. A terceira hipótese — a do “convite” — parecia a única que
fazia sentido. E, de alguma forma, ele sabia que sua ligação com Joanna não
terminara ali.
Voltou ao
prédio onde a mulher supostamente morara. Releu o endereço no guardanapo que
encontrara no bar abandonado. Eram idênticos.
Subiu até o apartamento.
A porta estava entreaberta.
— Alô?
Pedro? — chamou, com a voz trêmula.
Silêncio.
A sala
estava vazia, como se ninguém morasse ali há anos. O ar tinha cheiro de poeira
antiga. Um porta-retrato caído no chão chamou sua atenção. Ele o virou.
Era uma
foto dos dois irmãos: Pedro… e Joanna.
Mas
Joanna estava diferente daquela da foto anterior.
Na imagem nova, seus olhos estavam apagados — borrados, como se alguém tivesse
raspado a área com uma lâmina.
— Isso
não estava assim… — sussurrou.
Um
barulho no corredor o fez se virar.
Passos lentos.
Arrastados.
João não
viu ninguém, mas o ar ficou pesado. Como antes da chegada de uma tempestade.
De
repente, seu celular vibrou no bolso.
Olhou a tela.
Um número desconhecido.
Atendeu.
Por
alguns segundos, nada.
Depois,
ouviu uma respiração… fria, ritmada… familiar.
E então,
a voz.
— João…
você voltou.
A ligação
caiu.
João
ficou ali, parado, sentindo o corpo gelar.
Deu alguns passos para trás, pronto para fugir, quando viu algo no corredor: um
rastro úmido se formando no chão, como marcas de pés descalços, caminhando em
sua direção.
Ele
correu.
Correu
escada abaixo, quase tropeçando, sentindo cada fio de cabelo se eriçar como se
mãos invisíveis o perseguissem.
Na rua, respirou o ar frio da noite.
Guardanapo
na mão.
Telefone em silêncio.
E, ao
erguer os olhos, percebeu algo que o fez estremecer completamente:
A janela
do apartamento de Joanna — o mesmo onde Pedro dissera que ela morava — estava
iluminada.
E havia uma silhueta ali.
Imóvel.
Observando.
João não
sabia se era Joanna.
Ou algo usando a sua forma.
Ou se era um aviso de que a história não terminara naquela noite.
Ele deu
um passo para trás.
A luz se
apagou.
E o
prédio mergulhou em silêncio absoluto.
Até hoje, João evita passar naquela rua.
Mas, às vezes, quando abre a carteira… encontra o guardanapo de Joanna ali
novamente.
Com um detalhe novo:
sempre, sempre aparece uma palavra escrita no canto inferior:
“Volte.”
JK –
14.11.25

Boa noite! Já pensou em escrever um livro? Escreves textos lindos,e variados....Esse ,o desenrolar,foi fantástico!... Parabéns!
ResponderExcluir
ExcluirÉ sempre um prazer compartilhar minhas ideias e pensamentos com meus poucos leitores.
Sim, já pensei em escrever um livro no passado. Mas, não me acho bom o suficiente. Vou amadurecer a ideia.
Agradeço pela sugestão e pelo incentivo. Seu comentário me motiva a continuar escrevendo e compartilhando meus textos.
Obrigado por ler e por apreciar.