Sábado, véspera de finados. O ar amanheceu diferente — pesado, silencioso, quase sagrado. Meu único compromisso naquele dia era prestar minha homenagem à mãe de uma amiga querida que partira na madrugada.
Ao entrar na capela, senti o aroma das flores
misturado ao incenso suave que subia como prece invisível. Cumprimentei a
família, abracei minha amiga e, sem dizer muito, deixei que o silêncio falasse
por mim. Sentei-me em uma das poltronas, inclinei a cabeça e comecei a orar.
Rezei por todos — pela alma que se despedia,
pelos corações que choravam, e por mim também, confesso. Pedi a Nossa Senhora
Aparecida, de quem sou devoto, que envolvesse aquele lugar com seu manto azul e
consolasse a dor de quem ficava. Foram muitas Aves-Marias e Pais-Nossos, um
rosário inteiro de fé e entrega.
Em certo momento, abri os olhos — e foi então que
algo inexplicável aconteceu.
Minha amiga estava junto ao caixão, segurando com
ternura a mão de sua mãe. Atrás dela, uma mulher jovem, de uns 25 anos, de
cabelos pretos e postura serena, repousava as mãos sobre seus ombros. Mas havia
algo de estranho: eu não conseguia ver seu rosto. Havia apenas uma luz —
intensa, branca, envolvente — que emanava dela.
Fiquei imóvel. O som do piano ao fundo parecia
vir de outro mundo, e o canto distante de alguns pássaros se misturava àquela
cena quase celestial. O tempo, por um instante, pareceu parar. Senti um arrepio
percorrer minha pele e uma emoção difícil de descrever — como se o invisível
tivesse se tornado visível por alguns segundos.
Naquele instante, compreendi — ou quis
compreender — que aquela luz não era apenas uma presença. Era um sinal. Um
lembrete de que a fé não se explica, apenas se sente.
Em silêncio, fechei os olhos novamente. Quando os
abri, a imagem havia desaparecido. Mas a paz... essa permaneceu.
A dor do adeus parecia menos pesada, e a capela,
antes envolta em lágrimas, agora parecia respirar alívio.
Saí dali com o coração em silêncio e a alma em
oração.
Enquanto caminhava para fora, o vento soprou
suave, como quem confirma um segredo. E então pensei:
Quantas vezes a fé se manifesta quando menos esperamos?
Quantas vezes o divino se senta ao nosso lado, discreto, apenas para lembrar
que nunca estamos sozinhos?
Talvez a fé seja justamente isso — o mistério que
não precisa ser visto para ser verdadeiro. 🌿✨
JK – 01.11.25

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