sábado, 22 de novembro de 2025

A presença invisível da fé

 Sábado, véspera de finados. O ar amanheceu diferente — pesado, silencioso, quase sagrado. Meu único compromisso naquele dia era prestar minha homenagem à mãe de uma amiga querida que partira na madrugada.

Ao entrar na capela, senti o aroma das flores misturado ao incenso suave que subia como prece invisível. Cumprimentei a família, abracei minha amiga e, sem dizer muito, deixei que o silêncio falasse por mim. Sentei-me em uma das poltronas, inclinei a cabeça e comecei a orar.

Rezei por todos — pela alma que se despedia, pelos corações que choravam, e por mim também, confesso. Pedi a Nossa Senhora Aparecida, de quem sou devoto, que envolvesse aquele lugar com seu manto azul e consolasse a dor de quem ficava. Foram muitas Aves-Marias e Pais-Nossos, um rosário inteiro de fé e entrega.

Em certo momento, abri os olhos — e foi então que algo inexplicável aconteceu.

Minha amiga estava junto ao caixão, segurando com ternura a mão de sua mãe. Atrás dela, uma mulher jovem, de uns 25 anos, de cabelos pretos e postura serena, repousava as mãos sobre seus ombros. Mas havia algo de estranho: eu não conseguia ver seu rosto. Havia apenas uma luz — intensa, branca, envolvente — que emanava dela.

Fiquei imóvel. O som do piano ao fundo parecia vir de outro mundo, e o canto distante de alguns pássaros se misturava àquela cena quase celestial. O tempo, por um instante, pareceu parar. Senti um arrepio percorrer minha pele e uma emoção difícil de descrever — como se o invisível tivesse se tornado visível por alguns segundos.

Naquele instante, compreendi — ou quis compreender — que aquela luz não era apenas uma presença. Era um sinal. Um lembrete de que a fé não se explica, apenas se sente.

Em silêncio, fechei os olhos novamente. Quando os abri, a imagem havia desaparecido. Mas a paz... essa permaneceu.

A dor do adeus parecia menos pesada, e a capela, antes envolta em lágrimas, agora parecia respirar alívio.

Saí dali com o coração em silêncio e a alma em oração.

Enquanto caminhava para fora, o vento soprou suave, como quem confirma um segredo. E então pensei:
Quantas vezes a fé se manifesta quando menos esperamos?
Quantas vezes o divino se senta ao nosso lado, discreto, apenas para lembrar que nunca estamos sozinhos?

Talvez a fé seja justamente isso — o mistério que não precisa ser visto para ser verdadeiro. 🌿✨

 

JK – 01.11.25




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