Às vezes, me pego pensando em como cheguei até aqui. Quase sessenta anos nas costas, e uma estranha sensação de paz misturada com solidão me acompanha. Não é uma tristeza, não exatamente. É mais como uma aceitação mansa, um entendimento de que a vida seguiu seu curso e, de alguma forma, eu segui junto — meio torto, meio solitário, mas de pé. Descobri, sem drama, que estou sozinho. Não daquele jeito trágico que as músicas românticas descrevem, mas de um jeito silencioso, quase confortável.
Minha mãe, que por tantos anos foi minha vizinha de
parede e cheiro de café, hoje mora com minha irmã. Envelheceu com doçura e
teimosia, como sempre foi. Meus sobrinhos cresceram, casaram, multiplicaram a
família em cidades próximas — São Marcos, Flores da Cunha, Porto Alegre...
parece que o mapa da Serra virou um tabuleiro com pedacinhos da minha história
espalhados. E eu fiquei aqui, nesse canto que escolhi, entre o trabalho e o
sossego de casa.
Minha rotina é simples: trabalho, casa, café, e às vezes
uma cerveja com os amigos. Eles chegam de mãos dadas com as esposas, comentam
sobre filhos, viagens e reformas. Eu ouço, rio, e penso que cada um vive a sua
versão de felicidade. A minha não tem par romântico — tem silêncio, música, e
um sofá que já se moldou ao meu corpo. Tem também a liberdade de fazer o que
quero, quando quero, sem pedir licença a ninguém.
Descobri que não preciso de muito para estar bem.
Gosto do meu mundinho semi-perfeito, das minhas manias, da minha solidão
escolhida. Às vezes bate o vazio, é claro. Mas aprendi que o vazio também faz
parte — ele me lembra que estou vivo, que ainda sinto. E, no fundo, ser feliz a
minha maneira é o que me basta. A vida pode não ter seguido o roteiro
tradicional, mas, honestamente, acho que não teria graça se tivesse.
JK – 29.10.25

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