terça-feira, 25 de novembro de 2025

Ele brindou… mas ela não existia mais - Parte 2

 João começou a evitar espelhos. Evitava vidros, evitava olhar para qualquer superfície que pudesse refletir sua própria imagem — ou a dela. A cada tentativa, via aquele contorno familiar parado atrás dele, imóvel, como se aguardasse o momento certo para ser notado.

Ele dormia pouco, com o corpo sempre em alerta. A sensação era a mesma de quem espera que algo toque seu ombro a qualquer instante.

Mas ele precisava de respostas.
Sabia que não descansaria enquanto não entendesse o que realmente acontecera naquela noite no bar.

Decidiu voltar ao local.

Quando chegou, percebeu algo que antes não havia notado: a porta, apesar de idêntica, parecia mais velha. O letreiro estava apagado, as janelas cobertas de poeira. Ele entrou mesmo assim — e encontrou o interior abandonado, com mesas encostadas na parede e cheiro de mofo no ar.

O bar estava fechado havia pelo menos cinco anos.

— Mas eu estive aqui semana passada… — murmurou, sentindo o estômago revirar.

No balcão, encontrou um porta-guardanapos metálico. Dentro, apenas um único guardanapo intacto.
João puxou.

Era o mesmo guardanapo onde Joanna escrevera seu nome e endereço.

A mesma caligrafia.

O mesmo papel.

Mas… o dele continuava guardado na carteira.

Ele tirou a carteira, abriu — e viu que o guardanapo não estava mais lá.

A respiração ficou curta.
O coração, acelerado.

O bar estava escuro, exceto por uma luz fraca que vinha do espelho ao fundo. João tentou não olhar, mas era como se seus olhos fossem puxados para ali.

E então ele viu.

Não apenas a silhueta.
Viu o rosto dela.
Pálido.
Os olhos profundamente afundados, como se carregassem séculos de ausência.
Os lábios moviam-se, formando palavras silenciosas.

João virou o rosto, fechou os olhos e correu para fora. Só parou quando chegou ao fim da rua.

Respirou fundo.

— Isso não pode estar acontecendo…

Mas precisava continuar. A terceira hipótese — a do “convite” — parecia a única que fazia sentido. E, de alguma forma, ele sabia que sua ligação com Joanna não terminara ali.

Voltou ao prédio onde a mulher supostamente morara. Releu o endereço no guardanapo que encontrara no bar abandonado. Eram idênticos.
Subiu até o apartamento.
A porta estava entreaberta.

— Alô? Pedro? — chamou, com a voz trêmula.

Silêncio.

A sala estava vazia, como se ninguém morasse ali há anos. O ar tinha cheiro de poeira antiga. Um porta-retrato caído no chão chamou sua atenção. Ele o virou.

Era uma foto dos dois irmãos: Pedro… e Joanna.

Mas Joanna estava diferente daquela da foto anterior.
Na imagem nova, seus olhos estavam apagados — borrados, como se alguém tivesse raspado a área com uma lâmina.

— Isso não estava assim… — sussurrou.

Um barulho no corredor o fez se virar.
Passos lentos.
Arrastados.

João não viu ninguém, mas o ar ficou pesado. Como antes da chegada de uma tempestade.

De repente, seu celular vibrou no bolso.
Olhou a tela.
Um número desconhecido.

Atendeu.

Por alguns segundos, nada.

Depois, ouviu uma respiração… fria, ritmada… familiar.

E então, a voz.

— João… você voltou.

A ligação caiu.

João ficou ali, parado, sentindo o corpo gelar.
Deu alguns passos para trás, pronto para fugir, quando viu algo no corredor: um rastro úmido se formando no chão, como marcas de pés descalços, caminhando em sua direção.

Ele correu.

Correu escada abaixo, quase tropeçando, sentindo cada fio de cabelo se eriçar como se mãos invisíveis o perseguissem.
Na rua, respirou o ar frio da noite.

Guardanapo na mão.
Telefone em silêncio.

E, ao erguer os olhos, percebeu algo que o fez estremecer completamente:

A janela do apartamento de Joanna — o mesmo onde Pedro dissera que ela morava — estava iluminada.
E havia uma silhueta ali.
Imóvel.
Observando.

João não sabia se era Joanna.
Ou algo usando a sua forma.
Ou se era um aviso de que a história não terminara naquela noite.

Ele deu um passo para trás.

A luz se apagou.

E o prédio mergulhou em silêncio absoluto.

Até hoje, João evita passar naquela rua.
Mas, às vezes, quando abre a carteira… encontra o guardanapo de Joanna ali novamente.
Com um detalhe novo:
sempre, sempre aparece uma palavra escrita no canto inferior:

“Volte.”

 

JK – 14.11.25



2 comentários:

  1. Boa noite! Já pensou em escrever um livro? Escreves textos lindos,e variados....Esse ,o desenrolar,foi fantástico!... Parabéns!

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    Respostas

    1. É sempre um prazer compartilhar minhas ideias e pensamentos com meus poucos leitores.

      Sim, já pensei em escrever um livro no passado. Mas, não me acho bom o suficiente. Vou amadurecer a ideia.

      Agradeço pela sugestão e pelo incentivo. Seu comentário me motiva a continuar escrevendo e compartilhando meus textos.

      Obrigado por ler e por apreciar.

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