João, um homem de 57 anos, sempre teve uma rotina simples: trabalho, casa e, vez ou outra, uma cerveja gelada no bar da esquina. Naquela noite chuvosa, porém, algo parecia puxá-lo para fora, como se uma força invisível o convidasse a sair de casa. Ele decidiu ir até o bar.
Entrou, sacudiu o casaco encharcado e sentou no balcão. Pediu uma cerveja. O bar estava quase vazio, exceto por um casal jogando sinuca e o garçom sonolento encostado no freezer.
Foi então que ela entrou.
Uma mulher de aparência elegante, por volta dos 50 anos, cabelos escuros presos de forma simples, mas impecável. Vestia um casaco comprido, que deixava um rastro de ar frio por onde passava. Ela se aproximou do balcão, sentou a dois bancos de distância de João e pediu:
— Uma cerveja, por favor.
Quando recebeu o copo, virou-se para ele. Seu olhar era tão fixo e intenso que João sentiu o corpo estremecer — como se alguém estivesse segurando sua coluna por dentro.
— Vamos fazer um brinde? — ela disse, erguendo o copo com um sorriso quase triste.
João, sem entender exatamente o porquê, aceitou.
Brindaram.
E, por algum motivo, a conversa fluiu — ou melhor, ela falou sem parar. Sobre a vida, sobre o irmão, sobre a cidade, sobre memórias que pareciam flutuar entre nostalgia e melancolia. João notou que ela nunca tocava nele, nem mesmo quando ria. Era como se um pequeno espaço de ar gelado os separasse.
Na hora de ir embora, ele tentou pedir seu telefone, mas ela apenas pegou um guardanapo, anotou o nome Joanna Galvão, um endereço e entregou a ele.
— Se quiser me ver, é só ir até lá — disse, levantando-se. — Eu sempre estou.
A frase soou estranha, mas antes que João pudesse perguntar qualquer coisa, ela já havia desaparecido pela porta.
João guardou o guardanapo na carteira e esqueceu o assunto por alguns dias.
Até que, uma semana depois, decidiu visitá-la.
Ao chegar no endereço, um prédio antigo, de janelas estreitas e jardim malcuidado, apertou o interfone.
— Alô? — respondeu uma voz masculina.
— Boa tarde… estou procurando a Joanna. Ela mora aí?
Houve um silêncio.
— Quem está falando? — perguntou o homem, num tom cauteloso.
— Meu nome é João. Eu a conheci semana passada. Ela me deu esse endereço…
O homem respirou fundo e respondeu:
— Amigo… deve haver algum engano. Minha irmã… a Joanna… faleceu há três meses.
João congelou.
— Como assim? Eu estive com ela! Conversamos por horas! — disse, sentindo a garganta fechar.
O homem, que se apresentou como Pedro, desceu para falar com João pessoalmente e, ao ver o desespero dele, levou-o até o apartamento. Lá mostrou uma velha fotografia em preto e branco de sua irmã.
João ficou pálido.
Era ela. A mesma mulher. O mesmo olhar.
A mesma que brindou com ele sete dias antes.
Nos dias seguintes, João caiu em um turbilhão de pensamentos. Tentou investigar, perguntar ao garçom do bar (que estranhamente não lembrava de nenhuma mulher naquela noite). Tentou refazer o caminho. Procurou informações em jornais antigos.
Mas nada explicava o que acontecera.
Porém, três hipóteses, três possibilidades macabras, insistiam em assombrá-lo madrugada após madrugada:
1. A hipótese da dívida não paga
Joanna poderia ter sido vítima de algo terrível — algo que a prendeu entre o mundo dos vivos e dos mortos. Talvez ela tivesse sido assassinada. Talvez ainda buscasse alguém que a ajudasse a vingar-se, e o brinde com João tivesse selado um pacto involuntário.
Às vezes, João acordava com marcas escuras no pulso, como dedos apertando sua pele. Como se alguém estivesse tentando arrastá-lo para o mesmo destino.
2. A hipótese do espelho quebrado
Naquela noite no bar, João lembrava de ter olhado para o espelho atrás do balcão… e não ter visto o reflexo da mulher. Na hora, pensou estar enganado. Agora, tem certeza.
Talvez não fosse ela — mas algo que imitava sua forma, usando a identidade de Joanna como máscara. Uma entidade que precisava ser lembrada para continuar existindo.
E ele a lembrou.
E agora ela aparece em qualquer superfície refletida que João tenta encarar por mais de dois segundos.
3. A hipótese do convite
E se o endereço não fosse apenas um lugar?
E se fosse um chamado?
João descobriu, pesquisando, que aquela casa havia sido palco de rituais espíritas décadas antes. Talvez Joanna — ou o que restava dela — estivesse presa naquele apartamento, esperando alguém sensível o bastante para vê-la e ouvi-la.
Afinal, ela disse: "Eu sempre estou."
E desde que João foi lá… ele também sente algo à espreita, como se um segundo par de passos o acompanhasse até o portão do prédio sempre que passa por perto.
Continua amanhã.....
Jean – 14.11.25

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