quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

O Caso do Pijama Xadrez (ou Como Quase Entrei para a Polícia)

   Depois de muito quebrar a cabeça, olhar pro teto, pro celular e pro nada absoluto, finalmente cheguei a uma conclusão sobre o mistério do Grupo. Quem diria, eu ali, atacando de detetive, me sentindo praticamente um personagem dos romances policiais da Agatha Christie… só que sem o glamour, sem o cachimbo e com café frio ao lado.


Analisei tudo com muito critério (leia-se: curiosidade exagerada). Cada detalhe importava. Cada silêncio suspeito também. Mas foi então que o universo resolveu me dar a pista definitiva: a vestimenta. Um pijama xadrez. Sim, senhoras e senhores, um pijama xadrez em pleno verão! Aquilo não era apenas roupa de dormir, era uma confissão involuntária.


Imediatamente minha mente começou a trabalhar mais rápido que Wi-Fi liberado. Quem, em são consciência, usaria um pijama xadrez com esse calor? Só podia ser alguém que ama xadrez. Ama de verdade. Daqueles que respiram xadrez, pensam em xadrez… embora, confesso, o gosto tenha dado uma leve guinada nos últimos dias. Suspeitíssimo!


Como bom investigador de sofá, fui a campo. Conversei com colegas, levantei hipóteses, cruzei informações, fiz cara de quem sabia mais do que realmente sabia. E, incrivelmente, todos chegamos à mesma conclusão. Sem sombra de dúvidas. Foi quase um momento solene… se não fosse completamente ridículo.


Mistério desvendado! Não houve prisões, nem sirenes, nem manchetes nos jornais. Só risadas, imaginação correndo solta e aquela sensação deliciosa de ter resolvido um caso que só existia mesmo para a gente se divertir. Porque no fim das contas, às vezes o maior crime é levar a vida a sério demais — e esse, definitivamente, não é o nosso caso! 😌😂


J.K - 14.01.26




terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Quando tudo começou

   Quando você surgiu diante de mim, houve um instante de descrença. Era como se a vida tivesse ensaiado esse encontro por anos e, ainda assim, eu não estivesse preparado. Havia algo em você que parecia antigo e novo ao mesmo tempo, como um sonho que insiste em voltar mesmo depois de acordarmos.


Teu olhar encontrou o meu com uma naturalidade desarmante. Não foi promessa nem espetáculo — foi reconhecimento. Naquele silêncio breve, senti o mundo diminuir de tamanho e, sem perceber, agradeci por aquilo que nem sabia que buscava.


Passei tanto tempo esperando algo sem nome, desejando sem rosto, que nunca cogitei que pudesse existir alguém assim. Você não estava nos meus planos porque eu sequer imaginava que a vida pudesse ser tão precisa quando decide surpreender.


Hoje entendo: algumas histórias não são procuradas, são entregues. E quando isso acontece, resta apenas aceitar, cuidar e permanecer. Você chegou sem aviso, mas ocupou um espaço que sempre foi seu — mesmo antes de eu saber.

 

27.12.25 – J.K




Agora é a minha vez de falar

   Você vai escutar o que ficou entalado por tempo demais. Dizem que tudo melhora quando a gente esquece, e talvez até melhore mesmo. Mas há feridas que a memória se recusa a apagar. Eu não esqueci da falta de cuidado, nem da indiferença travestida de silêncio. O que você fez não foi pequeno — atingiu direto um coração que só queria permanecer inteiro.

O que digo agora não nasce da raiva, mas da clareza. São palavras sem enfeite, diretas, duras como precisam ser. Não há exagero, não há encenação. Apenas a verdade exposta, limpa, sem disfarces. É o limite sendo desenhado com calma: existe uma saída, e ela não passa mais por mim.

Fiquei tempo demais recolhido em mim mesmo. Houve dias longos de solidão, noites de choro contido, um cansaço que parecia não ter fim. Aguentei, esperei, sobrevivi. Aos poucos, comecei a me refazer, a respirar melhor, a acreditar que a dor também cansa de machucar.

E é justamente agora, quando volto a me encontrar, que você resolve bater à porta outra vez. Mas não. Não mais. Há encontros que só atrasam a cura. Se você voltou para perturbar a paz que demorei tanto a construir, chegou atrasado. O que eu devia a mim mesmo, eu já paguei. E seguir em frente também é um ato de coragem.

 

J.K – 26.12.25






segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Os hábitos que ficaram

    Eu realmente acreditei que o tempo daria conta de tudo. Que os gestos repetidos, os rituais silenciosos e aquilo que era rotina acabariam se dissolvendo na memória. Convenci a mim mesmo de que o passado não deixava marcas tão profundas, de que viver junto não cria raízes. Disse, em pensamento, que certas experiências passam sem deixar vestígios — mas era apenas uma forma educada de me enganar.

 

Nunca imaginei que sentiria falta de coisas tão pequenas. Frases ditas sem importância antes de dormir, o despertar preguiçoso dividido, um cumprimento ainda deitado. Conversas soltas, um beijo apressado, o café servido sem cerimônia. Detalhes banais que, juntos, formavam um mundo inteiro. O silêncio confortável, o jornal aberto, o tempo compartilhado sem pressa.

 

Os hábitos têm memória própria. Eles insistem em contar histórias antigas, em lembrar risos, encontros com amigos, noites que terminavam quando o dia já começava. A luz apagada, o corpo próximo, a sensação de abrigo. São lembranças que não desaparecem de imediato; precisam de muito tempo para perder o peso — e algumas nunca perdem.

 

Hoje, me encontro só, respirando uma liberdade que, curiosamente, às vezes assusta. Aceitar a vida sem você exige mais coragem do que eu imaginava. Porque como esquecer os costumes que construímos juntos, se nem você, que lhes deu sentido, eu consegui deixar para trás?

 

J.K – 21.12.25








 

domingo, 11 de janeiro de 2026

Quando o orgulho grita

    Eu disse coisas no calor do momento, palavras que nem passaram pelo coração antes de sair da boca. Quando percebi, já era tarde. Às vezes falo para ferir, não para ser sincero, e isso me envergonha. Voltar atrás não apaga o que foi dito, mas é o mínimo quando se ama de verdade.

 

Sou um homem que erra, que exagera, que ultrapassa limites achando que está se defendendo. Quase sempre você tem razão, mesmo quando eu demoro a admitir. Peço que entenda: não é falta de amor, é excesso de medo. Medo de perder, de ficar só, de não saber viver sem você.

 

Por isso peço que fique. Não leve suas coisas agora, não transforme essa briga em despedida. Vamos respirar, sentar no sofá, deixar a poeira baixar. Prometo ouvir, aceitar condições, ceder onde for preciso — por mim, por você, por nós dois.

 

Quando vi suas lágrimas, algo quebrou dentro de mim. Ali entendi que amor não é vencer discussões, é escolher ficar mesmo depois da dor. Posso aceitar quase tudo, reconhecer minhas falhas, engolir o orgulho. Só não consigo aceitar esse adeus.

 


J.K – 19.12.25





Quando eu quase atravessei

   Resolvi escrever sobre um tema delicado e profundamente espiritual: minha Experiência de Quase Morte. Não por curiosidade ou escolha, mas porque a vida me levou até um limite onde o corpo já não manda mais e a alma começa a sussurrar verdades.

 

Tudo aconteceu durante uma cirurgia na mão direita. Em determinado momento, algo se rompeu — não apenas no corpo, mas no tempo. Meu coração parou. E, nesse instante, eu não fui embora… apenas deixei de estar aqui.

 

Eu via e ouvia tudo. As vozes, os movimentos, os esforços ao meu redor. Eu via meu corpo deitado na mesa de cirurgia, imóvel, enquanto eu estava desperto em outro lugar. Não havia medo. Havia clareza!

 

Então surgiu um túnel. Escuro no início, mas conduzindo a uma luz dourada e branca, quente e viva. Não era uma luz que cegava, era uma luz que acolhia. Nela havia paz, reconhecimento, pertencimento. Minha vida passou diante de mim como um sopro, e um amor imenso tomou conta de tudo — um amor sem julgamento, sem cobrança, sem tempo.

 

Eu sentia que alguém me esperava. Não vi um rosto, não ouvi palavras, mas havia presença. Uma presença que dizia, sem voz: você está seguro. O que vivi ali não cabe em explicações humanas. Há experiências que só o espírito compreende.

 

Enquanto isso, aqui, tentavam me trazer de volta. Eu escutava cada esforço. Lembro de ouvir que eu ainda estava vivo porque uma lágrima escorreu do meu olho. Eu tentava avisar que estava ali, que escutava, que sentia — mas não conseguia me mover. E mesmo assim, não houve desespero. A serenidade era absoluta. A morte, naquele instante, não assustava. Ela parecia um retorno.

 

Voltei. Graças às mãos humanas, mas também — eu acredito — por decisão divina. Voltei diferente. Mais atento ao simples, menos preso ao material, mais consciente do essencial.

 

Desde então, ganhei um amigo invisível aos olhos, mas presente em tudo. Converso com Ele todos os dias. Dou bom-dia, boa-noite, entrego minhas dores, minhas dúvidas e minha gratidão. Nele eu acredito. Nele eu descanso. E sei que, quando chegar a hora, nos reconheceremos sem susto. Nesse dia, vou abraçá-lo e dizer, com a paz que senti naquele túnel de luz: “Finalmente te conheci, meu amigo. Meu Deus.”

 


J.K – 17.12.25



Quando eu errei o velório (e rezei pelo morto errado)

    A vida é pródiga em situações engraçadas, tropeços memoráveis e histórias que a gente só acredita porque viveu. Essa, sem dúvida, foi uma das que mais me marcou — talvez porque misture luto, amizade, anos 80, álcool em excesso e uma absoluta falta de noção.

 

A mãe de uma amiga havia morrido. Ficamos sabendo da notícia ao sair do Incitatus, uma boate de Caxias do Sul, por volta das seis da manhã, nos saudosos anos 80. Como bons amigos e péssimos juízes de realidade, eu, Andréa e Christiane decidimos ir direto da boate para o velório. Detalhe importante: já estávamos completamente pra lá de badgá. Tínhamos tomado todas. E, como se não bastasse, contado com aquele velho “moderador de apetite” para dar energia extra.

 

Seguimos firmes rumo às capelas mortuárias do Pompéia. Ao chegar, Andréa e Chris entraram. Eu fiquei do lado de fora fumando um cigarro e refletindo sobre a vida — ou tentando. Depois, fui comprar umas balinhas para “purificar o hálito”, porque nada diz respeito ao luto como um hálito mentolado às sete da manhã.

 

Entrei decidido. Fui direto ao espaço reservado aos familiares. Dei os pêsames com convicção, tomei café, conversei sobre a causa da morte, sobre a família e, inexplicavelmente, sobre agricultura. Detalhe: eu não entendo absolutamente nada de agricultura. Estranhei não encontrar a Lissandra, mas as gurias haviam avisado que ela tinha ido para casa tomar banho, trocar de roupa e comer algo. Segui.

 

Enquanto esperava, resolvi sentar com os familiares ao redor do caixão. Rezei o terço com um grupo de senhoras muito compenetradas. Passou mais de uma hora. Nada da Lissandra. Nada da Andréa. Nada da Nani. Comecei a achar estranho. Onde estavam todos?

 

Foi então que uma senhora resolveu ajeitar as flores aos pés da falecida. Me aproximei para ajudar — solidário, respeitoso e completamente errado. Ao olhar melhor para o corpo, tive uma revelação divina: o morto era um homem. Um homem! Não era a mãe de ninguém que eu conhecia. Nesse exato momento, entendi tudo: eu havia entrado na capela errada.

 

Explico: eram três capelas, lado a lado. Eu escolhera a errada. Resultado? Um ataque de riso nervoso, incontrolável, daqueles que começam no estômago e sobem feito tsunami. Saí da sala às pressas para não cometer um crime social irreversível.

 

Recuperado — ou quase — entrei na segunda capela. Nada das gurias. Foi então que caiu a ficha final: o velório certo era na capela três. Entrei. Lá estava Lissandra, viva, inteira, sofrida como se deve estar num velório verdadeiro. As gurias, por sua vez, estavam preocupadas comigo. Eu havia sumido por mais de duas horas.

 

Fomos para fora. Contei tudo. Sentamos os quatro no meio-fio e caímos na gargalhada. Gargalhada daquelas que doem a barriga, molham os olhos e suspendem a realidade por alguns minutos. Por um instante, a tristeza deu lugar à alegria — não por desrespeito, mas por humanidade.

 

Até hoje conto essa história. E até hoje rio. O que o álcool e outras substâncias fazem com a gente. Mas aprendi uma lição valiosa: sair de uma festa direto para um velório nunca é uma boa ideia. Ainda mais depois de ter bebido todas.

 

J.K – 17.12.25