sábado, 17 de janeiro de 2026

Entre o que fui e o que ainda sou

   Sou páginas escancaradas, mas quase sem enredo. Um sonho frágil, meio perdido, sem lembranças claras do que ficou para trás. Trago marcas de um passado que passou rápido demais, deixando mais silêncio do que respostas. Ainda assim, sigo sendo esse rascunho inacabado chamado eu.

 

Sou cais acolhedor onde poucos atracam. Sou imensidão que recebe rios de histórias alheias, mesmo quando as minhas parecem dispersas. Não finjo ser mais do que sou: um abrigo possível, imperfeito, mas sincero, tentando existir do jeito que dá.

 

Carrego em mim essa contradição curiosa: jovem cansado de tanto viver, velho precoce de tantas dores. Vivi demais em alguns instantes, sofri cedo em outros, e houve partes de mim que morreram antes da hora. Ao mesmo tempo, deixei muita coisa para depois, como se o tempo fosse infinito.

 

Sou livre, e isso me basta! Nunca me curvei como escravo, tampouco usei a máscara de senhor. Sou apenas um homem comum, com falhas e esperanças, que apesar de tudo — e talvez por causa de tudo — ainda acredita no amor!

 

J.K – 28.12.25




Vanilla, amor que ficou

    Perder a Vanilla não foi apenas dizer adeus a uma cachorrinha. Foi como perder um pedacinho da rotina, do silêncio da casa e até de quem a gente era quando ela estava por perto. Ela não ocupava espaço físico — ela preenchia. E agora, a ausência dela faz barulho.

Quem olha de fora pode até chamar de “pet”, mas só quem viveu sabe: a Vanilla era família. Era presença diária, companhia fiel, olhar atento e carinho sem agenda. Ela não perguntava como foi o dia, mas sabia exatamente quando ele tinha sido pesado demais.

A passagem dela por aqui não foi longa o suficiente — nunca é. Mas foi intensa, cheia de alegria simples, dessas que não precisam de grandes motivos. Um rabo abanando, um jeito único de pedir atenção, um amor oferecido sem condições. Vanilla amava do jeito mais puro que existe.

Dói porque foi real. Dói porque foi importante. Dói porque ela deixou marcas que não somem com o tempo. Ficam nas lembranças, nas fotos, nos cantinhos da casa e, principalmente, no coração — esse lugar onde ela agora mora pra sempre.

Ao mesmo tempo, existe gratidão. Gratidão por cada momento vivido, por cada riso arrancado nos dias comuns, por cada ensinamento silencioso sobre lealdade, presença e amor genuíno. A Vanilla partiu, mas deixou um legado de afeto que ninguém tira.

Hoje a saudade aperta, os olhos marejam e o coração sente. E tudo bem. Sentir é a prova de que valeu a pena. Que o amor foi grande. Que a Vanilla foi, e sempre será, inesquecível.

Porque alguns seres passam pela nossa vida só para nos ensinar uma coisa: o amor verdadeiro não vai embora. Ele apenas muda de lugar. 🐾✨

 

J.K – 17.01.26




 

Avesso de mim

Hoje acordei atravessado, com o espírito meio ruim, confesso. Daqueles dias em que tudo irrita um pouco mais e a paciência acorda atrasada. Sim, também tenho meus momentos pelo avesso, e hoje foi um deles.

 

Abri as redes e lá estavam: pés na praia, no campo, no sofá de casa. Muitos. Demais. E, olha… fiquei genuinamente impressionado com a quantidade de pés feios espalhados por aí — justo eu, que sempre gostei de pés. Ironia pura! Talvez não sejam os pés, talvez seja o excesso, a repetição, o vazio da intenção.

 

Observei também os corpos. Muitos sarados, tudo no lugar, quase milimetricamente calculado. Outros nem tanto. E esses, curiosamente, me agradam mais. São naturais, imperfeitos, reais. Essa obsessão pela estética, pela aparência impecável, pela preguiça de ser quem se é, está transformando todo mundo em cópia. Pessoas fabricadas em série, saídas da mesma linha de produção.

 

O pior, no entanto, não é o corpo “perfeito”. É o superficialismo que costuma vir junto. Corpos impecáveis, mentes ocas. Pouco conteúdo, muita pose, excesso de “mimimi” e escassez de pensamento. Beleza sem profundidade cansa. Encanta por segundos e esgota rápido.

 

Talvez hoje eu só esteja mais ácido. Ou talvez esteja apenas dizendo em voz alta algo que venho engolindo há tempos. Amanhã passa. Mas hoje, precisava desabafar.

 

- J.K – 28.12.25






 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Se ficas ou partes

 Se você decide ir, é porque meu desejo também abre essa porta. Se resolve voltar, é porque meu coração ainda chama o seu. Há um cuidado silencioso nisso tudo: sei que meu afeto te alcança mesmo quando você finge não notar. Sou mais presença em você do que imagina, mesmo quando tenta se afastar!

 

Quero que você caminhe pelo mundo sem medo, que cruze rostos, histórias e cidades. Que conheça outras vozes, outros risos, outros cheiros. E sim, que prove outros beijos, não por descuido, mas para que, no espelho das comparações, minha memória continue voltando, hoje e sempre!

 

Se por acaso um novo amor te pegar de surpresa e parecer completo, enquanto eu viro quase nada, aceitarei o silêncio que vem depois. Nesse instante, saberei recuar com dignidade, como quem entende o tempo das coisas e respeita o próprio limite!

 

Então darei meia-volta e partirei sem ruído, seguindo meu caminho como o sol no fim do dia: sem escândalo, sem promessa, apenas cumprindo o ciclo. Porque amar também é saber sair quando já não se é escolha!

 

- J.K – 28.12.25




Dono do meu caminho

    Se alguém comentar que eu ando mais quieto, que pareço diferente, pode acreditar. Não é tristeza escancarada, é escolha! Aprendi a ficar mais comigo, a reduzir o barulho ao redor e a seguir no meu ritmo. Mudei porque precisei mudar, não para fugir, mas para continuar.

 

Tenho cruzado a vida em alta velocidade, meio sem freio, meio sem mapa. Às vezes é estrada, às vezes é a elevada da Bazei, esse lugar de passagem onde pensamentos se atropelam. Vou seguindo entre o que sonhei e o que consegui viver, tentando não perder o fio do que ainda faz sentido.

 

Se disserem que hoje faço o que quero, é verdade! Assumi o volante, mesmo com as mãos tremendo. Sem você, confesso, perdi um pouco da graça — virei apenas mais um carro no fluxo, atravessando a cidade enquanto a saudade insiste em sentar no banco ao lado.

 

E sim, às vezes exagero para suportar a ausência, porque olhar em volta e não te encontrar pesa. Está tudo em ordem, ao menos é o que repito. Sei que não dá mais para estarmos perto, mas ainda carrego esse desejo teimoso: te ver mais uma vez, antes que o esquecimento finalmente aprenda meu nome.

 

J.K – 28.12.25




Preservar a luz!

   O mundo pede atenção. Viver exige cuidado, quase como um gesto aprendido aos poucos, feito de equilíbrio e sensibilidade. Há riscos espalhados pelo caminho, e seguir adiante sem se ferir demais é uma espécie de talento silencioso, desses que a gente desenvolve com o tempo.


Existem surpresas escondidas onde a luz falha: nas curvas inesperadas, nos cantos apertados, nos trajetos que parecem menores do que realmente são. Cada passagem guarda algo imprevisível, e atravessar tudo isso requer presença, olhar atento e respeito pelos próprios limites.


Que nada roube de você aquilo que ilumina por dentro. Que o sorriso espontâneo não se apague, que a leveza continue encontrando espaço no seu rosto, mesmo quando o mundo insiste em ser áspero. Preservar essa alegria é um ato de resistência.


O que desejo é te ver inteira: corpo bem cuidado, espírito disposto, humor aberto para a vida. Que exista saúde nos seus dias e gentileza no modo de encarar tudo ao redor. Assim, você segue firme, atravessando o mundo sem perder aquilo que te faz única.


 

J.K – 27.12.25






quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Dalton Martins, meu pai

   Há exatos 24 anos meu pai partiu. O tempo passou, o mundo mudou, eu mudei — mas a saudade não. O amor e a admiração continuam intactos, como se ele tivesse saído ontem e esquecido algo importante em casa. É impossível lembrar do Seu Martins sem que o peito aperte e os olhos denunciem.

 

Ele não foi perfeito, e ainda bem! Nunca deixou faltar nada para nós, principalmente amor. Foi mais do que pai: foi herói, foi bandido quando precisava me assustar, e foi meu melhor amigo quando eu mais precisei. Hoje entendo que tudo o que ele queria era o meu bem! O melhor para mim! Eu é que era peralta demais, travesso demais, imaturo demais para compreender seus ensinamentos na época.

 

Escrever sobre o Dalton é deixar a verdade entrar sem pedir licença. Sempre desejei ser ao menos um terço do homem extraordinário que ele foi — pelo caráter, pelo talento, pela forma como cuidava da família, dos amigos e dos negócios. Ele tinha o dom raro de ser grande sem fazer barulho.

 

Meu pai foi querido por todos. Deixou marcas, histórias e uma presença que o tempo não apagou. Era um homem de fé, educado, elegante nos gestos e simples na essência. Sabia transitar entre a firmeza e o carinho como poucos.

 

Ele me ensinou que o amor não acaba. Que família é a maior riqueza que alguém pode ter. Que não existe nada mais valioso do que chegar em casa no fim do dia e ser recebido de braços abertos — seja por quem divide o sangue, seja por quem escolheu ficar.

 

Hoje, quando me olho no espelho, vejo meu pai refletido em mim. A semelhança vai além do rosto: está nos gestos, nas manias, na forma de amar. Às vezes, encaro meu reflexo e brinco comigo mesmo: “por que você tá me olhando assim, Seu Martins?” — de tão impressionante que é a semelhança. E lá do Céu, com todos os meus defeitos, eu sei que ele se orgulha do filho que tenta, todos os dias, ser um pouco mais como ele.

 

J.K – 17.12.25