quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Às vezes me pergunto...

 Às vezes me pergunto se eu tivesse escolhido outros caminhos, aonde eu estaria agora? Na época da faculdade, optei por um curso que não me prendesse em Caxias do Sul: Jornalismo. Naquela época, eu não gostava da cidade, mas hoje sou apaixonado por ela. E lá fui eu para Porto Alegre, morar com duas meninas, nos anos 90, quando tudo era proibido ou errado.

 

Confesso que foram os melhores anos da minha vida. Era apaixonado pelas gurias e pela capital gaúcha. Eu era um interiorano, um "gringo avesso" italiano deslumbrado pela cidade, redescobrindo o mundo e suas infinitas possibilidades de ser feliz. E fui, muito!

 

Além de estudar, eu era notívago. Onde havia uma festa, lá eu estava. Não perdia um show, um espetáculo de teatro, um Planeta Atlântida e até o Rock In Rio. Bons tempos! E, aqui entre nós, em tom confessional, não me arrependo de nada. Faria tudo de novo, mas com um pouco mais de juízo.

 

A segunda opção era odontologia em Passo Fundo, mas não passei. E fui e ainda sou apaixonado pela terra do Teixeirinha. Lá vivi meus melhores momentos da infância e adolescência. Como será que seria minha vida nesta terra que eu amo?

 

E a terceira e última opção, era ter cursado psicologia em Caxias do Sul, ter casado com a Mara. Como será que estaríamos hoje? Filhos crescidos, avós. Será que ainda estaríamos na pérola das colônias ou em outro lugar? Será que ainda estaríamos juntos? Como será que eu estaria se tivesse trilhado outro caminho?

 

JK – 29.11.25




terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Quando o Natal me faz silenciar

 O Natal sempre me convida ao silêncio. Um silêncio diferente, que não é vazio, mas cheio de perguntas. Segundo a tradição, foi nesse tempo que Jesus nasceu, trazendo uma mensagem de libertação, amor e entrega. E, ainda assim, olhando para o mundo — e para mim mesmo — percebo o quanto continuamos distantes daquilo que Ele tentou nos ensinar. O ouvimos, mas raramente deixamos que sua palavra nos transforme.

 

Há mais de dois mil anos, a cruz permanece diante de nós como símbolo de amor extremo, e mesmo assim insistimos em repetir velhos padrões. Julgamos, dividimos, ferimos. Muitas vezes crucificamos de novo, não com pregos, mas com indiferença, egoísmo e falta de compaixão. Confesso que dói reconhecer isso, porque não falo apenas do mundo — falo de mim também.

 

Em noites como essa, me pergunto quando aprenderemos de verdade. Quando vamos nos abraçar sem desconfiança, como quem reconhece no outro um irmão de caminhada? Quando o amor deixará de ser discurso e passará a ser gesto? Amor simples, como o de mãe. Amor firme, como o de pai. Amor que acolhe, divide e não exige nada em troca.

 

Vivemos tempos em que a ganância fala alto, onde poucos têm muito e muitos têm quase nada. Falamos em paz, mas alimentamos conflitos. Criamos leis, muros e interesses que protegem apenas alguns, esquecendo que humanidade não se escolhe — se cuida. Às vezes parece que estamos caminhando para longe do essencial, distraídos demais para perceber.

 

Mesmo assim, algo dentro de mim insiste em acreditar. Que ainda há tempo! Que ainda podemos mudar. Que o Natal não seja apenas uma data, mas um reencontro com aquilo que realmente importa. Que o verdadeiro espírito natalino renasça em nós, não como promessa vazia, mas como atitude diária.

 

 

Que neste Natal a gente reveja prioridades, cure feridas e reacenda a fé. Fé no amor, na empatia, no humano. Fé serena, quase teimosa, de que dias melhores não são apenas possíveis — eles começam quando cada um de nós decide ser um pouco mais luz no caminho do outro.

 

JK – 21.12.25




segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Se eu fosse Papai Noel por um dia

 Se por milagre e magia eu acordasse Papai Noel em um único dia, confesso: antes mesmo de vestir o gorro, meu coração já estaria acelerado. Não pela responsabilidade dos presentes, mas pela chance rara de tocar o mundo sem pedir nada em troca. Eu sairia pelas ruas, becos e avenidas com o mesmo cuidado para ricos e pobres, porque naquele dia o valor não estaria no embrulho, mas no gesto. Cada entrega seria um pedido silencioso de esperança.

 

Depois do último presente entregue, viria a magia que eu mais desejaria realizar. Não seria luz, nem brilho, nem espetáculo. Seria simples e profunda: faria com que as pessoas se abraçassem. Abraços longos, sinceros, como os de eternos namorados, como os de amigos que se reencontram depois de anos. Abraços que curam mágoas antigas, que silenciam rancores e lembram que ninguém nasceu para atravessar o mundo sozinho.

 

Nesse dia, a paz não seria discurso nem promessa. Ela simplesmente reinaria. As discussões perderiam a força, o orgulho ficaria sem voz, e o medo não encontraria lugar para se esconder. O mundo, ainda que por poucas horas, se pareceria com um conto de fadas — não por ser perfeito, mas por ser humano. Pessoas rindo sem motivo, chorando sem vergonha, vivendo sem armaduras.

 

Talvez, ao final do dia, eu deixasse de ser Papai Noel e voltasse a ser apenas eu. Mas guardaria comigo a esperança de que algo tivesse ficado. Um abraço lembrado, um gesto repetido, um pouco mais de gentileza espalhada. Porque, no fundo, o verdadeiro milagre do Natal não é a magia de um homem de vermelho — é a coragem de amar quando o mundo insiste em endurecer.

 


JK – 17.12.25



Um pedido que carrego no peito

 Este ano, tomei coragem e fiz um pedido especial para o Papai Noel — mesmo sabendo que alguns vão dizer que enlouqueci de vez, que sou um sonhador incorrigível, alguém que não se encaixa nos tais “padrões” dessa sociedade apressada. E talvez eu não me encaixe mesmo. Talvez eu seja, sim, um pouco fora da curva. Mas, no fundo, é justamente por isso que resolvi abrir meu coração e confessar o que venho desejando há tanto tempo.

 

Pedi algo simples… e, ainda assim, tão raro: que as pessoas carreguem um pouco mais de amor dentro do peito. Que soltem esse peso do egoísmo, que olhem além do próprio umbigo, que enxerguem a dor — e a beleza — que existe no outro. Sonhei com um mundo onde um sorriso não é moeda de troca, onde a mão estendida não pede nada em retorno. Onde a gentileza não é exceção, mas hábito.

 

Também pedi algo ainda mais difícil: que cessem as guerras. Pode parecer utopia, eu sei… mas é duro aceitar que, mesmo vivendo na era da inteligência artificial, ainda somos incapazes de controlar nossos impulsos mais destrutivos. Como é possível que, com tanto avanço, falte justamente aquilo que não se compra — humanidade, autocontrole, empatia? Às vezes, me pergunto se desaprendemos a sentir.

 

E por fim, pedi o que mais me aperta o coração: que nenhuma mesa fique vazia neste Natal — nem em nenhum dia de 2026. Que cada família tenha o mínimo para celebrar a vida, o renascimento, a esperança. Que o próximo ano traga mais estabilidade, mais dignidade, mais horizonte aberto para todos nós. Estou confiando em você, Papai Noel… mas, acima de tudo, estou confiando nos governantes que chegarão em 2026. Que sejam melhores do que os que tivemos. Que sejam, ao menos, humanos.

 

JK – 12.12.25




domingo, 21 de dezembro de 2025

Uma semana com ela

 Depois de muito passear com Helena Horacia — minha mãe, diga-se de passagem — temos um ritual sagrado: escolher um filme, ajeitar o sofá e dar o play. Cinco minutos depois, ela já está dormindo profundamente, enquanto eu sigo firme, assistindo sozinho e fingindo que não fui abandonado. Olho pro lado, vejo aquele soninho tranquilo e penso: missão cumprida. Querida, cansei ela nos passeios.

 

Nessas férias comigo, essa simpática e amável velinha de 85 anos, que por acaso é a mulher que me colocou no mundo, se transforma em chef de cozinha cinco estrelas. Não existe, definitivamente, chefe melhor do que ela. Tudo tem gosto de infância, de cuidado e de “come mais um pouquinho”. E eu como. Sempre! Porque recusar comida de mãe não é uma opção, é um pecado capital.

 

Como se não bastasse, minha mãe ainda limpa a casinha, organiza o que eu finjo não ver e faz tudo com uma alegria desarmante. Entre um pano e outro, surgem presentes, lembrancinhas, surpresas e aquele olhar satisfeito de quem cuida sem pedir nada em troca. Eu observo e penso que estou claramente sendo mimado além da conta.

 

No meio de tantos carinhos, mimos e afagos, fica impossível não amar ainda mais essa mulher que é minha mãe. Só dói uma coisa: uma semana passa rápido demais quando a gente está rodeado de amor verdadeiro. Dá vontade de pausar o tempo, desligar o calendário e ficar ali, sendo filho, enquanto ela cochila no sofá e me deixa, de novo, sozinho com o filme.

 

JK – 17.12.25




 

Aniversário fora de hora

 Existe uma coisa que sempre me faz sorrir — e ao mesmo tempo levantar uma sobrancelha — que é o tal do “feliz aniversário atrasado”. Não me entenda mal, sei que a intenção quase sempre é boa, mas há algo de profundamente estranho nisso. Afinal, ninguém deseja “feliz Natal” no réveillon, nem manda votos de “boa Páscoa” quando o chocolate já acabou. Datas têm seu momento, e o charme está justamente em respeitar esse tempo.

O aniversário é um pequeno ritual pessoal. Um dia específico, com direito a bolo, mensagens, abraços e aquela sensação silenciosa de “hoje sou eu”. Quando ele passa, passa junto a atmosfera. No dia seguinte, a vida já voltou ao normal, o bolo virou lembrança e o parabéns atrasado soa mais como um lembrete do esquecimento do que como celebração.

Se você não lembrou, não deu tempo, ou simplesmente deixou escapar — tudo bem. Acontece. A vida anda corrida, os dias se atropelam e ninguém é obrigado a ser um calendário ambulante. Mas, talvez, a elegância esteja justamente em aceitar o lapso e seguir em frente, em vez de tentar remendar o tempo com um “antes tarde do que nunca”.

Confesso: acho mais delicado não dizer nada. O silêncio, nesse caso, é mais gentil do que uma mensagem fora de hora. Não magoa, não constrange e não exige aquele sorriso educado de quem responde “imagina” enquanto pensa: o problema não foi o atraso, foi a lembrança fora de contexto. Às vezes, o verdadeiro parabéns é saber respeitar o momento — inclusive quando ele já passou.

 

JK – 20.12.25




 

sábado, 20 de dezembro de 2025

O melhor presente

 Tirei férias e, junto com elas, fui buscar o que realmente importava. Saí de Caxias e fui até São Marcos buscar minha mãe para passar uma semana comigo, antes do Natal. Ela mora com minha irmã, mas naquele período era comigo que ela estaria. Confesso que, no caminho, pensei no quanto o tempo passa depressa e no privilégio silencioso que é ainda poder buscá-la, abrir a porta do carro e dizer: “vem passar uns dias comigo”.

 

A semana foi intensa, do jeito que a vida real é. Teve faxina no apartamento, daquelas que cansam o corpo e organizam a alma. Teve visitas, compromissos, idas e vindas, compras feitas sem pressa, mas com alegria. E, no meio de tudo isso, uma velinha de 85 anos encantada com cada detalhe. Ela amou tudo. Cada gesto simples parecia grande aos olhos dela — e isso, sem eu perceber, também me ensinava a olhar melhor para a vida.

 

Entre um dia corrido e outro, houve um desses momentos que a gente guarda para sempre. Sentados no sofá, abraçadinhos, assistimos juntos ao show de Maria Bethânia e Caetano Veloso na televisão. Ali, o mundo desacelerou. Não era só música. Era memória, era afeto, era o tempo fazendo as pazes com a gente. Eu senti que aquele abraço valia mais do que qualquer palavra.

 

Hoje, quase sessentão, posso dizer sem vergonha nenhuma: mãe ainda é o melhor presente de Natal que alguém pode querer. Não vem em caixa, não tem laço, não se compra. É presença, é cuidado, é amor que atravessa o tempo. E se existe milagre nessa época do ano, ele atende pelo nome de convivência.

 

JK – 17.12.25